EXPOENTES DO ESPIRITISMO NO BRASIL
Bezerra de Menezes, Angel Aguarod, Batuíra, Cairbar Schutel, Lins de Vasconcelos e Vianna de Carvalho destacaram-se no trabalho de Unificação do Movimento Espírita, deixando-nos exemplos significativos de amor e dedicação à Causa. Vejamos alguns tópicos de suas laboriosas existências.
4.1 BEZERRA DE MENEZES
Vimos, no Roteiro 5 deste Módulo, que os primeiros passos do processo de Unificação no Brasil foram dados por Bezerra de Menezes, inspirando-se nas orientações de Kardec contidas no livro Obras póstumas, de que foi o primeiro tradutor para o português. Mas quem era, em realidade, Bezerra de Menezes? Vamos encontrar a resposta para essa indagação na obra Brasil, coração do mundo, pátria do evangelho, transmitida pelo Espírito Humberto de Campos ao médium Francisco Cândido. Xavier. Relata o autor espiritual que, ao final do primeiro reinado no Brasil, Ismael – Entidade protetora de nossa pátria – reuniu no Espaço os seus companheiros de luta, conclamando-os a acentuarem o amparo aos corações humanos, atormentados pelas amarguras inerentes aos tempos de transição. Refere-se à existência de numerosos missionários reencarnados, naquele momento, em várias nações da Terra, todos com o propósito de aliar a palavra da Boa-Nova aos postulados científicos que surgiriam naquele século. Concita a luminosa assembleia à concentração de esforços em torno da pátria do Evangelho, para que possa ser plantada no coração dos seus filhos a semente bendita da Boa-Nova, que deveria frutificar, mais tarde, no solo bendito do Cruzeiro. Em dado momento da reunião, dirige-se Ismael a um dos seus mais dedicados e fiéis discípulos, assim falando:
– Descerás às lutas terrestres com o objetivo de concentrar as nossas energias no país do Cruzeiro, dirigindo-as para o alvo sagrado dos nossos esforços. Arregimentarás todos os elementos dispersos, com as dedicações do teu Espírito, a fim de que possamos criar o nosso núcleo de atividades espirituais, dentro dos elevados propósitos de reforma e regeneração. Não precisamos encarecer aos teus olhos a delicadeza dessa missão; mas, com a plena observância do código de Jesus e com nossa assistência espiritual, pulverizarás todos os obstáculos, à força de perseverança e de humildade, consolidando os primórdios de nossa obra, que é a de Jesus, no seio da pátria do seu Evangelho. Se a luta vai ser grande, considera que não será menor a compensação do Senhor, que é o Caminho, a Verdade e a Vida. Havia em toda a assembleia espiritual um divino silêncio. O discípulo escolhido nada pudera responder, com o coração palpitante de doces e esperançosas emoções, mas as lágrimas de reconhecimento lhe caíam copiosamente dos olhos. [...] Daí a algum tempo, no dia 29 de agosto de 1831, no Riacho do Sangue, no Estado do Ceará, nascia Adolfo Bezerra de Menezes, o grande discípulo de Ismael, que vinha cumprir no Brasil uma elevada missão.29
Segundo ainda o referido autor espiritual, no mesmo livro, após alguns anos de existência, veio Bezerra para o Rio de Janeiro, em 1852, onde passou a atuar como médico devotado e ardoroso político, exercendo ambas as tarefas com a prudência e a sensatez dos Espíritos Superiores. Exemplo disso, é o seu comportamento na questão da escravidão no
Brasil:
A campanha abolicionista, com grandes vultos à frente, se intensifica em 1869. Bezerra, espírito prudente e cheio de ponderação, lembrando-se da sanguinolenta Guerra de Secessão, publica nesse mesmo ano um estudo intitulado A escravidão no Brasil e as medidas que convém tomar para extingui-la sem dano para a Nação.1 (Grifo nosso).
Note-se, entretanto, que outra missão mais alta – aquela que recebera do próprio Ismael – [...] o aguardava, não para o coroar de louros, que perecem, mas para trazer a sua memória à imortalidade, em que vive, conservando-o como médico das almas ao serviço de uma clientela que cresce todos os dias.2 Assim é que, no dia 16 de agosto de 1886 [...] Bezerra de Menezes ante um auditório de pessoas da melhor sociedade proclamava solenemente a sua adesão ao Espiritismo.3 Foi o início de intensos anos de amplas atividades de divulgação da Doutrina Espírita pela palavra e pela escrita, inclusive com a publicação de várias obras literárias. Em 3 de agosto de 1895, foi eleito pela segunda vez para a presidência da Federação Espírita Brasileira (ocupara a presidência da FEB durante o ano de 1889), tendo sido, à frente da Casa de Ismael, até sua desencarnação, incansável trabalhador.4 Bezerra desprendeu-se do orbe [em 11 de abril de 1900], tendo consolidado a sua missão para que a obra de Ismael pudesse ser livremente cultivada no século XX. E essa obra prossegue sempre. Podem as inquietações da Terra separar, muitas vezes, os trabalhadores humanos no seu terreno de ação; mas a sociedade benemérita [a FEB], onde se ergue a flâmula luminosa – Deus, Cristo e Caridade – permanece no seu porto de paz e de esclarecimento [...].30
Era tão intensa em seu coração a prática do bem [...] que o povo o cognominou “Médico dos Pobres”. Viveu e morreu modestamente, distribuindo com os necessitados tudo o que possuía.5 Ainda hoje, no Plano Espiritual, Bezerra – nosso Kardec brasileiro –, continua servindo ao ideal do bem e trabalhando pela Unificação, inspirando os espíritas no Brasil e no Exterior a manterem-se unidos em torno do estudo, da divulgação e da prática do Espiritismo. Duas de suas mensagens, em especial, têm sido orientadoras de todo o trabalho de Unificação nos últimos tempos: Unificação, recebida pela médium Francisco Cândido Xavier, em 20 de abril de 1963, e Unificação paulatina, união imediata, trabalho incessante, recebida pelo médium Divaldo Pereira Franco, no dia 20 de abril de 1975. (Veja Anexo 2 do Roteiro 5 deste Módulo.)
4.1 ANGEL AGUAROD
Nasceu na Espanha, no dia 2 de outubro de 1860. De origem humilde e procedência católica, passou por inúmeras dificuldades em sua terra natal. Em 1880, interessou-se pelo Espiritismo, estudando-o com afinco. Teve significativa atuação no Movimento Espírita em seu país, sendo um dos fundadores da Unión Espirita Kardeciana. Pode-se dizer que até 1905, ano em que se mudou para a Argentina, não houve ato importante do Movimento Espírita na Espanha de que ele não tivesse participado, com outros grandes trabalhadores da Unificação, como Amália Domingo Soler e demais pioneiros do Movimento Espírita espanhol. Enquanto residiu na Argentina, trabalhou intensamente no Movimento Espírita do país, chegando a fundar duas instituições: Centro Amor y Ciencia e a Liga Espirita Kardeciana de Propaganda, instituições estas que passou a dirigir. Percorreu várias vezes o interior da Argentina, fazendo conferências e ajudando na fundação de centros espíritas. Após retornar à Espanha e, logo depois, passar alguns meses no Uruguai, fixou residência no Paraguai, onde desenvolveu trabalho ativo de propaganda espírita. Voltou ainda à sua pátria, mas, em 1915, veio residir em Porto Alegre, incorporando-se, desde então, à vida ativa do Movimento Espírita no Brasil, atuando em várias sociedades e na imprensa espírita. Na revista Eternidade, órgão de que era o dirigente, iniciou intensa campanha com vistas à união dos espíritas rio-grandenses, campanha que se coroou de êxito com a fundação, no dia 17 de fevereiro de 1921, da Federação Espírita do Rio Grande do Sul (FERGS), cujos destinos estiveram sob sua direção até o ano de 1927. Durante sua presidência e mesmo depois desta, realizou inúmeras viagens de propaganda, que resultaram na fundação de novas sociedade e centros de estudo pelo interior do Estado. Como representante da Federação Espírita do Rio Grande do Sul, fez parte do Conselho Federativo Nacional, constituído, no Rio de Janeiro, em de 3 de outubro de 1926. Era, com efeito, um obreiro que não descansava, dedicando-se, inteiramente, ao trabalho de Unificação do Movimento Espírita. No dia 13 de novembro de 1932, desencarnava, em Porto Alegre, esse inolvidável trabalhador.6 Finalmente, é dever ressaltar o excelente livro de Angel Aguarod: Grandes e pequenos problemas, publicado pela FEB Editora, em cujo Prefácio Guillon Ribeiro tece valiosas considerações sobre a operosidade multíplice e fecunda do autor.
4.3 BATUÍRA
Narra Zêus Wantuil, na obra Grandes espíritas do Brasil, que Antônio Gonçalves da Silva (conhecido, posteriormente, como o Batuíra) era português de nascimento, vindo à luz no dia 19 de março de 1839, na freguesia de Águas Santas. Filho humilde de camponeses, emigrou com 11 anos para o Brasil, após ter apenas completado o curso primário, chegando ao Rio de Janeiro em 3 de janeiro de 1850. De início, trabalhou diligentemente como entregador de jornais, indo de um lado para o outro, qual uma narceja (ave pernalta e de voo ligeiro, que o povo chamava de batuíra). Daí a origem do seu apelido: Batuíra. Sempre muito ativo e empreendedor foi, aos poucos, aumentando seus recursos financeiros, a tal ponto de o pobre portuguesinho tornar-se [...] um abastado proprietário, cujos haveres traduziam o fruto de muitos anos de trabalho árduo e honrado, unido a uma perseverança inquebrantável [...]. Na ocasião em que tudo parecia correr bem, falece, quase que repentinamente, o filho único de sua segunda esposa [...]. Era uma criança de doze anos, por quem o casal se extremava em dedicação e carinho. Este golpe feriu profundamente aquele lar, que só pôde encontrar lenitivo à dor na consoladora Doutrina dos Espíritos. Tão grande foi a paz que o Espiritismo lhes infundiu, que Batuíra imediatamente pôs mãos à obra, no desejo ardente de que outros companheiros de labutas terrenas tivessem conhecimento daquela abençoada fonte de esperanças novas.7
Batuíra entregou-se, então, às atividades espíritas com tanta intensidade [...] que em pouquíssimo tempo ele se postava à frente de quaisquer realizações de vulto. [...] Nessa ocasião não havia mais no Estado de São Paulo qualquer folha espírita. [...] Foi então que Batuíra, sentindo a premente necessidade de um órgão para a propaganda, difusão e defesa da Doutrina em São Paulo, adquiriu uma pequena tipografia, a que denominou “Tipografia espírita”, e imprimiu, com a data de 20 de maio de 1890, o primeiro número de um periódico de quatro páginas, cujo diretor responsável foi ele próprio até o seu decesso. “Verdade e Luz” era o nome da publicação quinzenal que apareceu desassombradamente naquele fim de século [...], encerrando no frontispício estas duas epigrafes: “Sem caridade não há salvação” e “Nascer, morrer, renascer ainda e progredir sempre. Tal é a lei”.8
Em virtude de seus exemplos de socorro aos doentes e necessitados [...] o povo, o mais beneficiado por Batuíra, passou a denominá-lo “Médico dos Pobres”, cognome que igualmente aureolou o nome de Adolfo Bezerra de Menezes. A ação benemérita de Batuíra não se circunscrevia, entretanto, a estas manifestações da caridade cristã. Foi muita mais além. Criou ele grupos e centros espíritas em São Paulo, Minas Gerais, Estado do Rio, os quais animava e assistia; realizou conferências sobre diversos temas doutrinários, em inúmeras cidades de vários Estados [...]; espalhou gratuitamente prospectos e folhetos de propaganda do Espiritismo, por ele próprio impressos, e distribuiu milhares de livros pelo interior do país [...]. Assim era o valoroso obreiro da Terceira Revelação, o incansável lidador que nunca se deixou abater pelas asperezas da jornada, tendo sido incontestavelmente um dos maiores propagandistas do Espiritismo no Brasil.9
E a luta continuava:
Sentindo, afinal, chegada a hora de concretizar no Estado de São Paulo um belo e mui importante anseio da Federação Espírita Brasileira [...], qual seja, o do congraçamento de todos os espíritas dentro de um plano de organização semelhante ao que é hoje o Conselho Federativo Nacional, plano que havia sido apresentado pela Casa Máter, em 1º. de outubro de 1904, sob o título de “Bases de Organização Espírita”; compreendendo a excelência daquela medida em benefício do próprio Espiritismo no Brasil, Batuíra, unido a outros confrades ilustres, constituiu na capital paulista, a 24 de maio de 1908, a “União Espírita do Estado de São Paulo”, que federaria todos os centros e grupos existentes no Estado. Da Comissão Executiva desta novel sociedade estadual, que pouco depois se filiava à Federação Espírita Brasileira, foi primeiro presidente o Coronel Antônio Raposo de Almeida, ocupando Batuíra a vice-presidência até à sua desencarnação [...]. Alguns Estados já possuíam Sociedades que desempenhavam, mais ou menos, funções de caráter estadual, mas a adesão de São Paulo ao projeto da FEB obteve grande ressonância em todo o Brasil espírita, sendo causa, ao que parece, da criação em Belo Horizonte, cerca de um mês depois, da “União Espírita Mineira”.10
Ele, contudo, prosseguia: Inteiramente convencido de que só o Amor constrói para a eternidade, o velho Batuíra não esmorecia um só instante no apostolado da Caridade, não medindo sacrifícios em tão belo quão árduo labutar. Carregando sobre os ombros muitas responsabilidades, não sentiu, tão preso se achava ao cumprimento dos seus deveres, que suas forças vitais se esgotavam rapidamente. Súbita enfermidade assalta-lhe o corpo, e, zombando de todos os recursos médicos, em poucos dias obriga-o a transpor as aduanas do Além. Às dezesseis horas de 22 de janeiro de 1909, seus despojos baixavam à terra, no cemitério da Consolação. Em todo o Brasil foi bastante lastimada a partida do denodado e operoso obreiro. Reformador, entre outras coisas, declarou: “Sua desencarnação representa uma perda sensível para o Espiritismo, de que se constituíra, uma tradição viva, sobretudo no que tem de excelente a nossa Doutrina – a prática do bem.” E após ressaltar-lhe os beneméritos serviços, o órgão da Federação Espírita Brasileira tecla esta feliz comparação: “Por isso, o seu desprendimento aos 70 anos de existência meritória, foi como um desses crepúsculos sem nuvens, em que o Sol não se esconde, luminoso e sereno, às nossas vistas, senão para ressurgir com um esplendor maior no hemisfério oposto.” Aos esforços e à dedicação de Antônio Gonçalves da Silva Batuíra muito deve o progresso do Espiritismo no Brasil, especialmente no Estado de São Paulo.11
4.4 CAIRBAR SCHUTEL
Cairbar de Souza Schutel foi um dos maiores vultos do Espiritismo brasileiro. Encarnado em 22 de setembro de 1868 na cidade do Rio de Janeiro [...], tornou-se incansável propagador da Doutrina Espírita, conseguindo realizar uma obra das mais admiráveis, revelando uma operosidade sem par e uma fé inquebrantável nos ideais reencarnacionistas.12 Iniciou sua existência física com a angustiosa perda de pai e mãe pouco antes de completar 10 anos, sendo, então, criado pelo avô. Decidindo-se a abandonar os estudos, dedicou-se ao trabalho de prático de farmácia e, aos 17 anos, já era bom nesta profissão. Foi nessa época que, por não gostar da vida da corte, rumou para o interior de São Paulo, localizando-se, respectivamente, em Piracicaba, Araraquara e, por fim, em Matão, cidade em que, no ano de 1889, ocupou o cargo de primeiro presidente da Câmara Municipal. Aproximou-se do Espiritismo por meio de seu amigo Manuel Calixto, cujo pai era o espírita da cidade e, com o tempo, percebeu o despertar, em si mesmo, de diversas faculdades mediúnicas, fato este que o levou a aprofundar-se no conhecimento espírita, estudando as obras básicas de Allan Kardec e tudo o mais que havia em Português. Em 15 de julho de 1905, Cairbar Schutel funda o Centro Espírita Amantes da Pobreza – o primeiro de toda aquela zona do Estado – e, em 15 de agosto do mesmo ano, o jornal O Clarim. Não satisfeito, funda ainda, em colaboração com Luís Carlos de Oliveira Borges, que lhe proporcionou recursos para o mister, a Revista Internacional do Espiritismo (RIE). Esses órgãos continuam circulando e representam exemplos vivos de luta e perseverança. Grande polemista, jamais se escusou a manifestar a própria opinião, ou se curvou diante das perseguições contra o Espiritismo, tão frequentes naquela época. Sua atividade irradiava-se por todo o Estado, por meio da escrita e da palavra, mas, sobretudo, pelo exemplo, sendo, inclusive, chamado de Pai da Pobreza, pelo seu interesse em ajudar os necessitados sociais. Foi também autor de vários livros de teor espírita. Não poupava esforços em benefício da Causa, sacrificando tempo, dinheiro e a própria saúde para manter-se sempre no trabalho edificante, tendo sido, por isso mesmo, conhecido nos meios espíritas como o Apóstolo de Matão.13 Cairbar Schutel foi um dos mais, senão o mais dinâmico trabalhador da Seara. “O segredo do seu dinamismo multiforme” – escreveu o prof. Ismael Gomes Braga – “está em que ele vivia realmente a Doutrina, não somente a pregava”. Cercado da consideração de seus familiares e de numerosos espíritas, desencarnou no dia 30 de janeiro de 1938. O povo de Matão havia perdido materialmente o “Pai da pobreza”. Todos os espíritas do Brasil e quiçá do mundo sentiram tão valiosa perda. O seu sepultamento foi uma apoteose. O comércio fechou, a indústria paralisou e a prefeitura de Matão hasteou o pavilhão nacional a meio-pau, envolto em crepe. A Federação Espírita Brasileira e seu órgão oficial – Reformador – fizeram-se representar nos funerais do velho Schutel pelo grande espiritista paulista Pedro de Camargo (Vinícius). No Teatro Municipal de Araraquara e em grande número de cidades do Brasil fizeram-se sessões solenes que se constituíram em verdadeiras consagrações públicas ao grande missionário. A imprensa leiga de São Paulo, do Rio, da Bahia, pelos seus melhores jornais, noticiou-lhe o passamento. Todos os órgãos espíritas brasileiros, e mesmo alguns estrangeiros, dedicaram-lhe importantes artigos.14
Finalizemos com um trecho do jornal O Mensageiro Espírita, de Lisboa, a ele referindo-se:
A projeção de sua obra é alguma coisa de grande, mesmo de extraordinário, nos anais do Espiritismo, e a sua memória, a memória de um obreiro heroico que ao ideal sacrificou toda a sua vida, há de perdurar através das gerações vindouras.15
4.5 LINS DE VASCONCELOS
A contribuição do Dr. Artur Lins de Vasconcelos para a expansão do Espiritismo no Brasil foi inestimável. Desenvolveu significativa obra de assistência social, apoiando constantemente as iniciativas do Movimento Espírita nesta área. Era um pacificador por excelência, tolerante em todos os sentidos: um verdadeiro homem de bem. Sempre à frente das iniciativas que reclamassem denodo e comprometimento, foi alçado à posição de líder pelos espíritas brasileiros. Nasceu no dia 27 de março de 1891, na cidade de Teixeira, alto sertão da Paraíba do Norte. Enfrentou as dificuldades daqueles que vivem afastados dos grandes centros urbanos, sem recursos para a própria subsistência. Começou, assim, a trabalhar muito cedo, enrijecendo o espírito empreendedor que já possuía. Sentia-se, entretanto, atraído para as terras do sul do país. Assim, depois de algum tempo no Nordeste, transferiu-se para a cidade de Curitiba, capital do Paraná, onde passou grande parte de sua existência. Aí iniciou seus estudos superiores, matriculando-se, no ano de 1918, na Escola Superior de Agronomia, em que se destacou por seu brilhantismo.Nessa época ainda não se ligara a qualquer manifestação religiosa, apesar de ter sempre aceitado a existência de Deus. Mas tinha muitas dúvidas acerca das diferenças sociais e as dificuldades da vida, interrogando-se a si mesmo sobre a razão de tantas desigualdades. Suas indagações, porém, somente seriam esclarecidas mais tarde quando, pelas mãos de um amigo dedicado à causa espírita, tomou conhecimento do Espiritismo. Tal fato ocorreu em 1912.16 Foi o início de seu grandioso trabalho em prol da Unificação do Movimento Espírita. Em 1915, como secretário geral da Federação Espírita do Paraná, ele participava com a alma em regozijo, da inauguração do Albergue Noturno daquela entidade [...] Em 1916, trabalhou ativamente no II Congresso Espírita Paranaense.17
Mais tarde, em 1925, na qualidade de presidente da referida federativa, protestou contra ato institucional do Governo do Estado, o qual havia doado terras para a instalação de dois bispados. Em virtude disso, sofreu perseguições e muitos aborrecimentos. Grande empreendedor que era, dedicou-se ao comércio madeireiro, começando a prosperar e a enriquecer. Em 1930, mudou-se para o Rio de Janeiro, ocasião em que foi eleito presidente honorário da Federação Espírita do Paraná (FEP), pelos assinalados serviços a ela prestados. Os bens materiais são multiplicados celeremente, passando a ser um homem milionário. Com a consolidação de sua posição financeira, passou a devotar-se inteiramente ao Espiritismo, a este oferecendo tudo o que lhe era possível.18 Sua cooperação humanitária, junto aos companheiros espíritas de vários Estados, foi multiforme: nos movimentos educativos da criança, no socorro às instituições de amparo à velhice e à infância abandonada, no empenho para a criação de Lares Infantis, Sanatórios, Hospitais, Ginásios, Creches, Institutos de Ensino etc., tudo em benefício do indivíduo e da coletividade, num trabalho contínuo que durou até os seus últimos dias de vida terrena. “A maior glória de Lins” – escreveu um seu biógrafo – “é não ter sido corrompido pelo fascínio do ouro”.19
No ano de 1948, [...] quando a “Gráfica Mundo Espírita” enfrentava uma crise seríssima, sua cooperação espontânea e sincera veio evitar o desparecimento dela, e, assumindo a sua direção, enfrentou todas as dificuldades decorrentes de sua atitude salvadora. Imprimiu nova orientação doutrinária a Mundo Espírita, periódico fundado em 1932, evitando que suas colunas servissem de veículo de ideais destruidores e separativistas. Respeitando a opinião do próximo, sabia da inutilidade de combates pessoais, quando eram esquecidas a ética e as normas de serenidade e respeito. [...] Esse jornal passou, depois, o órgão noticioso e doutrinário da Federação Espírita do Paraná. Ainda em 1948 empenhou-se na realização do I Congresso de Mocidades Espíritas do Brasil, apoiando a ideia do deputado Campos Vergal, transformada em realidade pela atuação de Leopoldo Machado. Foi uma de suas principais figuras, senão a maior, contribuindo, ainda, decisivamente, na parte financeira para a realização daquele certame. [...] Em fevereiro de 1949, fundou Lins de Vasconcelos a Ação Social Espírita – sonho maior de sua vida –, instituição que se destinava ao trabalho social do Espiritismo em todos os seus aspectos e sob todas as formas. As finalidades da Ação Social Espírita estão condensadas nos vinte e cinco itens inseridos na edição de 12 de março de 1949, de Mundo Espírita, abrangendo desde o auxílio às sociedades espíritas até o estímulo às artes e à ciência. [...] Quando dos preparativos para a realização do II Congresso Espírita Pan-americano, que se reuniu no Rio de Janeiro, no período de 3 a 12 de outubro de 1949, foi Lins de Vasconcelos chamado para participar da Comissão Organizadora, sendo-lhe entregue o cargo de Tesoureiro da Comissão, devendo-se ressaltar que de sua ação coordenadora e sensata deve-se o êxito alcançado por aquele certame. Empenhado na tarefa de conseguir a aproximação dos espíritas americanos, deu todo o apoio para que se reunissem no Rio de Janeiro os representantes das nações americanas.20
De certo, os grandes planos para o Movimento Espírita são traçados na Espiritualidade Superior e a união da família espírita é propósito a ser concretizado ao longo do tempo. Algumas pessoas, contudo, transformam-se em fatores de aceleração desse processo. Lins de Vasconcelos, indubitavelmente, foi uma delas. Seu sonho era reunir os seus irmãos de ideal num trabalho em comum.21 Quando da realização do II Congresso Espírita Pan-americano, estimando o esforço de muitos para o entrelaçamento de irmãos de outras pátrias, sentiu que era chegado o instante de unir os irmãos do “Coração do mundo e Pátria do Evangelho. Sentiu, por certo, que o Alto trabalhava nesse sentido e que se tornava preciso entrar em harmonia com os irmãos do Plano Invisível para que o sonho se convertesse em gloriosa realidade. E o dia 5 de outubro de 1949 foi, talvez, o dia mais feliz de sua vida. Foi o dia do “Pacto Áureo”, o dia áureo da confraternização. Se nada mais houvesse feito em prol da Causa – e foram tantos os benefícios que prestou ao Espiritismo –, sua ação para unir a família espírita brasileira, em torno da Casa de Ismael, lhe teria valido como uma certeza de que não fora vazia e inexpressiva sua vida no mundo. Como decorrência desse “Pacto Áureo”, foi, em seguida, organizada no Rio a “Caravana da Fraternidade”, composta de vários espíritas ilustres, entre eles o Dr. Lins de Vasconcelos, caravana que percorreu todo o norte e nordeste do País, numa entusiástica campanha em prol da unificação segundo as normas ditadas na grande Conferência Espírita realizada no Rio de Janeiro [em 1º de outubro de 1904].22
Segundo ainda informação de Zêus Wantuil, na obra Grandes espíritas do Brasil, já referida, o Dr. Artur Lins de Vasconcelos desencarnou, em 21 de março de 1957, na cidade de São Paulo, onde residia, sendo sepultado, a seu pedido, em Curitiba, cidade que muito amou.
4.6 VIANNA DE CARVALHO
Foi o major Dr. Manuel Vianna de Carvalho um dos maiores tribunos espíritas no Brasil, destacando-se pela sua eloquência, erudição e destemor na pregação do Espiritismo. Seu verbo inspirado, por meio de uma dicção impecável, de timbre sonoro e harmonioso, assumia, às vezes, tonalidades impressionantes, assomando-lhes aos lábios em tropos de empolgante beleza. Foi, na verdade, um mágico da palavra, esteta do sentimento e criador de sensibilidades, arrebanhando prosélitos e simpatizantes em sua “peregrinação” triunfante pelo Brasil afora.23
Nasceu na cidade de Icó (Ceará) aos 10 de dezembro de 1874. Por volta dos 18 anos tomou conhecimento da Doutrina Espírita, mas sua atividade de propagandista espírita só se intensiva quando vai para o Rio de Janeiro, em 1895, no exercício da carreira militar, e liga-se ao Centro da União Espírita de Propaganda no Brasil, que funcionava em terras cariocas. Transfere-se, em 1896, para Porto Alegre, continuando seu trabalho de divulgação do Espiritismo. Volta para o Rio de Janeiro, em 1898, e toma parte ativa no Congresso Espírita que se realizou por essa época. Indo, tempos depois, para Cuiabá (Mato Grosso), funda aí o Centro Espírita Cuiabano, dotando-o de todos os recursos necessários a uma intensa propaganda doutrinária. Em 1907, regressa ao Rio e passa a frequentar várias sociedades espíritas, inclusive a Federação Espírita Brasileira, da qual foi orador oficial e articulista de seu órgão de divulgação: Reformador. Em virtude de sua carreira militar, Vianna de Carvalho teve a oportunidade de semear o Espiritismo em diversas cidades brasileiras – do sul, centro e nordeste do país –, prosseguindo em sua faina doutrinária, quer pela palavra, quer pela escrita. Além disso, fundava e reorganizava grupos espíritas, onde se fizessem necessários.24
Reformador assinalou a seu respeito:
[...] Quando houver de escrever-se a história da evolução espírita em nossa Pátria, o artista tribuno e vibrante polemista terá seu lugar de destaque pela feição múltipla da sua atividade inconfundível.25 No ano de 1920 [...], voltou ao Rio de Janeiro, trabalhando em muitos núcleos, entre os quais o Abrigo Teresa de Jesus, a União Espírita Suburbana, o Grêmio Nazareno, o Centro Antônio de Pádua, a União dos Trabalhadores de Jesus, a Tenda Espírita de Caridade, o Centro José de Abreu, o Grupo Espírita Sebastião etc. Por essa época, por meio de Reformador, incentivou a criação, em todas as Sociedades Espíritas, de escolas de moral cristã destinadas às crianças, declarando que esse problema não deveria ser descurado [...] Querido e respeitado em todos os meios espíritas, desde o mais obscuro ao mais culto, Vianna procurou promover a unificação dos centros, convocando, para isso, uma reunião de presidentes de Agremiações, na rua Camerino (RJ), onde se procurou dar uma feição nova à prática do Espiritismo [...].26
Em 1923, no Nordeste, desenvolveu intensas atividades em Recife (Pernambuco) e Aracaju (Sergipe), orientando e estimulando o Movimento Espírita da região. Foi em Aracaju, no ano de 1926, que adoeceu gravemente, tendo sido levado, a bordo do paquete Íris, para internação em hospital de Salvador. Desencarnou, porém, durante a viagem, na altura de Amaralina, às 6h30 do dia 13 de outubro de 1926.27 Na imprensa e na tribuna, foi o arauto da Boa-Nova espírita, salientando-se entre os mais destacados propagandistas [...]. Seus improvisos tribunícios, abrilhantados pelo arroubo do verbo candente que magnetizava e empolgava os auditórios, foram acontecimentos marcantes na História do Espiritismo em nossa terra. “Como bandeirante da ideia, como desbravador de searas” – assinalou Reformador – “é força convir que a sua obra doutrinária não tem paralelo no Brasil, ninguém fez mais nem fez melhor”.28
Uma vez na Espiritualidade, Viana (ou Vianna, como hoje prefere assinar) de Carvalho continua a empreender esforços em prol da divulgação do Espiritismo e da Unificação do Movimento Espírita, em especial, inspirando o médium Divaldo Pereira Franco, quer pela palavra, quer pela produção escrita. Pode-se destacar, quanto a esta última forma de atuação, a obra psicográfica Atualidade do pensamento espírita, em que lança as luzes do Espiritismo sobre diversas questões inquietantes, que afloram, atualmente, nas mais diversas áreas da compreensão humana. *** Em suma, pode-se dizer que Bezerra de Menezes, Angel Aguarod, Batuíra, Cairbar Schutel, Lins de Vasconcelos e Vianna de Carvalho – todos eles incansáveis trabalhadores – são, de certo, luzes imperecíveis, que aclararam os caminhos para o congraçamento da família espírita em torno do ideal da Unificação. E continuam eles desbravando as terras dos corações, agora no Mundo Espiritual, inspirando-nos e fortalecendo-nos no cumprimento do dever.
4.1 BEZERRA DE MENEZES
Vimos, no Roteiro 5 deste Módulo, que os primeiros passos do processo de Unificação no Brasil foram dados por Bezerra de Menezes, inspirando-se nas orientações de Kardec contidas no livro Obras póstumas, de que foi o primeiro tradutor para o português. Mas quem era, em realidade, Bezerra de Menezes? Vamos encontrar a resposta para essa indagação na obra Brasil, coração do mundo, pátria do evangelho, transmitida pelo Espírito Humberto de Campos ao médium Francisco Cândido. Xavier. Relata o autor espiritual que, ao final do primeiro reinado no Brasil, Ismael – Entidade protetora de nossa pátria – reuniu no Espaço os seus companheiros de luta, conclamando-os a acentuarem o amparo aos corações humanos, atormentados pelas amarguras inerentes aos tempos de transição. Refere-se à existência de numerosos missionários reencarnados, naquele momento, em várias nações da Terra, todos com o propósito de aliar a palavra da Boa-Nova aos postulados científicos que surgiriam naquele século. Concita a luminosa assembleia à concentração de esforços em torno da pátria do Evangelho, para que possa ser plantada no coração dos seus filhos a semente bendita da Boa-Nova, que deveria frutificar, mais tarde, no solo bendito do Cruzeiro. Em dado momento da reunião, dirige-se Ismael a um dos seus mais dedicados e fiéis discípulos, assim falando:
– Descerás às lutas terrestres com o objetivo de concentrar as nossas energias no país do Cruzeiro, dirigindo-as para o alvo sagrado dos nossos esforços. Arregimentarás todos os elementos dispersos, com as dedicações do teu Espírito, a fim de que possamos criar o nosso núcleo de atividades espirituais, dentro dos elevados propósitos de reforma e regeneração. Não precisamos encarecer aos teus olhos a delicadeza dessa missão; mas, com a plena observância do código de Jesus e com nossa assistência espiritual, pulverizarás todos os obstáculos, à força de perseverança e de humildade, consolidando os primórdios de nossa obra, que é a de Jesus, no seio da pátria do seu Evangelho. Se a luta vai ser grande, considera que não será menor a compensação do Senhor, que é o Caminho, a Verdade e a Vida. Havia em toda a assembleia espiritual um divino silêncio. O discípulo escolhido nada pudera responder, com o coração palpitante de doces e esperançosas emoções, mas as lágrimas de reconhecimento lhe caíam copiosamente dos olhos. [...] Daí a algum tempo, no dia 29 de agosto de 1831, no Riacho do Sangue, no Estado do Ceará, nascia Adolfo Bezerra de Menezes, o grande discípulo de Ismael, que vinha cumprir no Brasil uma elevada missão.29
Segundo ainda o referido autor espiritual, no mesmo livro, após alguns anos de existência, veio Bezerra para o Rio de Janeiro, em 1852, onde passou a atuar como médico devotado e ardoroso político, exercendo ambas as tarefas com a prudência e a sensatez dos Espíritos Superiores. Exemplo disso, é o seu comportamento na questão da escravidão no
Brasil:
A campanha abolicionista, com grandes vultos à frente, se intensifica em 1869. Bezerra, espírito prudente e cheio de ponderação, lembrando-se da sanguinolenta Guerra de Secessão, publica nesse mesmo ano um estudo intitulado A escravidão no Brasil e as medidas que convém tomar para extingui-la sem dano para a Nação.1 (Grifo nosso).
Note-se, entretanto, que outra missão mais alta – aquela que recebera do próprio Ismael – [...] o aguardava, não para o coroar de louros, que perecem, mas para trazer a sua memória à imortalidade, em que vive, conservando-o como médico das almas ao serviço de uma clientela que cresce todos os dias.2 Assim é que, no dia 16 de agosto de 1886 [...] Bezerra de Menezes ante um auditório de pessoas da melhor sociedade proclamava solenemente a sua adesão ao Espiritismo.3 Foi o início de intensos anos de amplas atividades de divulgação da Doutrina Espírita pela palavra e pela escrita, inclusive com a publicação de várias obras literárias. Em 3 de agosto de 1895, foi eleito pela segunda vez para a presidência da Federação Espírita Brasileira (ocupara a presidência da FEB durante o ano de 1889), tendo sido, à frente da Casa de Ismael, até sua desencarnação, incansável trabalhador.4 Bezerra desprendeu-se do orbe [em 11 de abril de 1900], tendo consolidado a sua missão para que a obra de Ismael pudesse ser livremente cultivada no século XX. E essa obra prossegue sempre. Podem as inquietações da Terra separar, muitas vezes, os trabalhadores humanos no seu terreno de ação; mas a sociedade benemérita [a FEB], onde se ergue a flâmula luminosa – Deus, Cristo e Caridade – permanece no seu porto de paz e de esclarecimento [...].30
Era tão intensa em seu coração a prática do bem [...] que o povo o cognominou “Médico dos Pobres”. Viveu e morreu modestamente, distribuindo com os necessitados tudo o que possuía.5 Ainda hoje, no Plano Espiritual, Bezerra – nosso Kardec brasileiro –, continua servindo ao ideal do bem e trabalhando pela Unificação, inspirando os espíritas no Brasil e no Exterior a manterem-se unidos em torno do estudo, da divulgação e da prática do Espiritismo. Duas de suas mensagens, em especial, têm sido orientadoras de todo o trabalho de Unificação nos últimos tempos: Unificação, recebida pela médium Francisco Cândido Xavier, em 20 de abril de 1963, e Unificação paulatina, união imediata, trabalho incessante, recebida pelo médium Divaldo Pereira Franco, no dia 20 de abril de 1975. (Veja Anexo 2 do Roteiro 5 deste Módulo.)
4.1 ANGEL AGUAROD
Nasceu na Espanha, no dia 2 de outubro de 1860. De origem humilde e procedência católica, passou por inúmeras dificuldades em sua terra natal. Em 1880, interessou-se pelo Espiritismo, estudando-o com afinco. Teve significativa atuação no Movimento Espírita em seu país, sendo um dos fundadores da Unión Espirita Kardeciana. Pode-se dizer que até 1905, ano em que se mudou para a Argentina, não houve ato importante do Movimento Espírita na Espanha de que ele não tivesse participado, com outros grandes trabalhadores da Unificação, como Amália Domingo Soler e demais pioneiros do Movimento Espírita espanhol. Enquanto residiu na Argentina, trabalhou intensamente no Movimento Espírita do país, chegando a fundar duas instituições: Centro Amor y Ciencia e a Liga Espirita Kardeciana de Propaganda, instituições estas que passou a dirigir. Percorreu várias vezes o interior da Argentina, fazendo conferências e ajudando na fundação de centros espíritas. Após retornar à Espanha e, logo depois, passar alguns meses no Uruguai, fixou residência no Paraguai, onde desenvolveu trabalho ativo de propaganda espírita. Voltou ainda à sua pátria, mas, em 1915, veio residir em Porto Alegre, incorporando-se, desde então, à vida ativa do Movimento Espírita no Brasil, atuando em várias sociedades e na imprensa espírita. Na revista Eternidade, órgão de que era o dirigente, iniciou intensa campanha com vistas à união dos espíritas rio-grandenses, campanha que se coroou de êxito com a fundação, no dia 17 de fevereiro de 1921, da Federação Espírita do Rio Grande do Sul (FERGS), cujos destinos estiveram sob sua direção até o ano de 1927. Durante sua presidência e mesmo depois desta, realizou inúmeras viagens de propaganda, que resultaram na fundação de novas sociedade e centros de estudo pelo interior do Estado. Como representante da Federação Espírita do Rio Grande do Sul, fez parte do Conselho Federativo Nacional, constituído, no Rio de Janeiro, em de 3 de outubro de 1926. Era, com efeito, um obreiro que não descansava, dedicando-se, inteiramente, ao trabalho de Unificação do Movimento Espírita. No dia 13 de novembro de 1932, desencarnava, em Porto Alegre, esse inolvidável trabalhador.6 Finalmente, é dever ressaltar o excelente livro de Angel Aguarod: Grandes e pequenos problemas, publicado pela FEB Editora, em cujo Prefácio Guillon Ribeiro tece valiosas considerações sobre a operosidade multíplice e fecunda do autor.
4.3 BATUÍRA
Narra Zêus Wantuil, na obra Grandes espíritas do Brasil, que Antônio Gonçalves da Silva (conhecido, posteriormente, como o Batuíra) era português de nascimento, vindo à luz no dia 19 de março de 1839, na freguesia de Águas Santas. Filho humilde de camponeses, emigrou com 11 anos para o Brasil, após ter apenas completado o curso primário, chegando ao Rio de Janeiro em 3 de janeiro de 1850. De início, trabalhou diligentemente como entregador de jornais, indo de um lado para o outro, qual uma narceja (ave pernalta e de voo ligeiro, que o povo chamava de batuíra). Daí a origem do seu apelido: Batuíra. Sempre muito ativo e empreendedor foi, aos poucos, aumentando seus recursos financeiros, a tal ponto de o pobre portuguesinho tornar-se [...] um abastado proprietário, cujos haveres traduziam o fruto de muitos anos de trabalho árduo e honrado, unido a uma perseverança inquebrantável [...]. Na ocasião em que tudo parecia correr bem, falece, quase que repentinamente, o filho único de sua segunda esposa [...]. Era uma criança de doze anos, por quem o casal se extremava em dedicação e carinho. Este golpe feriu profundamente aquele lar, que só pôde encontrar lenitivo à dor na consoladora Doutrina dos Espíritos. Tão grande foi a paz que o Espiritismo lhes infundiu, que Batuíra imediatamente pôs mãos à obra, no desejo ardente de que outros companheiros de labutas terrenas tivessem conhecimento daquela abençoada fonte de esperanças novas.7
Batuíra entregou-se, então, às atividades espíritas com tanta intensidade [...] que em pouquíssimo tempo ele se postava à frente de quaisquer realizações de vulto. [...] Nessa ocasião não havia mais no Estado de São Paulo qualquer folha espírita. [...] Foi então que Batuíra, sentindo a premente necessidade de um órgão para a propaganda, difusão e defesa da Doutrina em São Paulo, adquiriu uma pequena tipografia, a que denominou “Tipografia espírita”, e imprimiu, com a data de 20 de maio de 1890, o primeiro número de um periódico de quatro páginas, cujo diretor responsável foi ele próprio até o seu decesso. “Verdade e Luz” era o nome da publicação quinzenal que apareceu desassombradamente naquele fim de século [...], encerrando no frontispício estas duas epigrafes: “Sem caridade não há salvação” e “Nascer, morrer, renascer ainda e progredir sempre. Tal é a lei”.8
Em virtude de seus exemplos de socorro aos doentes e necessitados [...] o povo, o mais beneficiado por Batuíra, passou a denominá-lo “Médico dos Pobres”, cognome que igualmente aureolou o nome de Adolfo Bezerra de Menezes. A ação benemérita de Batuíra não se circunscrevia, entretanto, a estas manifestações da caridade cristã. Foi muita mais além. Criou ele grupos e centros espíritas em São Paulo, Minas Gerais, Estado do Rio, os quais animava e assistia; realizou conferências sobre diversos temas doutrinários, em inúmeras cidades de vários Estados [...]; espalhou gratuitamente prospectos e folhetos de propaganda do Espiritismo, por ele próprio impressos, e distribuiu milhares de livros pelo interior do país [...]. Assim era o valoroso obreiro da Terceira Revelação, o incansável lidador que nunca se deixou abater pelas asperezas da jornada, tendo sido incontestavelmente um dos maiores propagandistas do Espiritismo no Brasil.9
E a luta continuava:
Sentindo, afinal, chegada a hora de concretizar no Estado de São Paulo um belo e mui importante anseio da Federação Espírita Brasileira [...], qual seja, o do congraçamento de todos os espíritas dentro de um plano de organização semelhante ao que é hoje o Conselho Federativo Nacional, plano que havia sido apresentado pela Casa Máter, em 1º. de outubro de 1904, sob o título de “Bases de Organização Espírita”; compreendendo a excelência daquela medida em benefício do próprio Espiritismo no Brasil, Batuíra, unido a outros confrades ilustres, constituiu na capital paulista, a 24 de maio de 1908, a “União Espírita do Estado de São Paulo”, que federaria todos os centros e grupos existentes no Estado. Da Comissão Executiva desta novel sociedade estadual, que pouco depois se filiava à Federação Espírita Brasileira, foi primeiro presidente o Coronel Antônio Raposo de Almeida, ocupando Batuíra a vice-presidência até à sua desencarnação [...]. Alguns Estados já possuíam Sociedades que desempenhavam, mais ou menos, funções de caráter estadual, mas a adesão de São Paulo ao projeto da FEB obteve grande ressonância em todo o Brasil espírita, sendo causa, ao que parece, da criação em Belo Horizonte, cerca de um mês depois, da “União Espírita Mineira”.10
Ele, contudo, prosseguia: Inteiramente convencido de que só o Amor constrói para a eternidade, o velho Batuíra não esmorecia um só instante no apostolado da Caridade, não medindo sacrifícios em tão belo quão árduo labutar. Carregando sobre os ombros muitas responsabilidades, não sentiu, tão preso se achava ao cumprimento dos seus deveres, que suas forças vitais se esgotavam rapidamente. Súbita enfermidade assalta-lhe o corpo, e, zombando de todos os recursos médicos, em poucos dias obriga-o a transpor as aduanas do Além. Às dezesseis horas de 22 de janeiro de 1909, seus despojos baixavam à terra, no cemitério da Consolação. Em todo o Brasil foi bastante lastimada a partida do denodado e operoso obreiro. Reformador, entre outras coisas, declarou: “Sua desencarnação representa uma perda sensível para o Espiritismo, de que se constituíra, uma tradição viva, sobretudo no que tem de excelente a nossa Doutrina – a prática do bem.” E após ressaltar-lhe os beneméritos serviços, o órgão da Federação Espírita Brasileira tecla esta feliz comparação: “Por isso, o seu desprendimento aos 70 anos de existência meritória, foi como um desses crepúsculos sem nuvens, em que o Sol não se esconde, luminoso e sereno, às nossas vistas, senão para ressurgir com um esplendor maior no hemisfério oposto.” Aos esforços e à dedicação de Antônio Gonçalves da Silva Batuíra muito deve o progresso do Espiritismo no Brasil, especialmente no Estado de São Paulo.11
4.4 CAIRBAR SCHUTEL
Cairbar de Souza Schutel foi um dos maiores vultos do Espiritismo brasileiro. Encarnado em 22 de setembro de 1868 na cidade do Rio de Janeiro [...], tornou-se incansável propagador da Doutrina Espírita, conseguindo realizar uma obra das mais admiráveis, revelando uma operosidade sem par e uma fé inquebrantável nos ideais reencarnacionistas.12 Iniciou sua existência física com a angustiosa perda de pai e mãe pouco antes de completar 10 anos, sendo, então, criado pelo avô. Decidindo-se a abandonar os estudos, dedicou-se ao trabalho de prático de farmácia e, aos 17 anos, já era bom nesta profissão. Foi nessa época que, por não gostar da vida da corte, rumou para o interior de São Paulo, localizando-se, respectivamente, em Piracicaba, Araraquara e, por fim, em Matão, cidade em que, no ano de 1889, ocupou o cargo de primeiro presidente da Câmara Municipal. Aproximou-se do Espiritismo por meio de seu amigo Manuel Calixto, cujo pai era o espírita da cidade e, com o tempo, percebeu o despertar, em si mesmo, de diversas faculdades mediúnicas, fato este que o levou a aprofundar-se no conhecimento espírita, estudando as obras básicas de Allan Kardec e tudo o mais que havia em Português. Em 15 de julho de 1905, Cairbar Schutel funda o Centro Espírita Amantes da Pobreza – o primeiro de toda aquela zona do Estado – e, em 15 de agosto do mesmo ano, o jornal O Clarim. Não satisfeito, funda ainda, em colaboração com Luís Carlos de Oliveira Borges, que lhe proporcionou recursos para o mister, a Revista Internacional do Espiritismo (RIE). Esses órgãos continuam circulando e representam exemplos vivos de luta e perseverança. Grande polemista, jamais se escusou a manifestar a própria opinião, ou se curvou diante das perseguições contra o Espiritismo, tão frequentes naquela época. Sua atividade irradiava-se por todo o Estado, por meio da escrita e da palavra, mas, sobretudo, pelo exemplo, sendo, inclusive, chamado de Pai da Pobreza, pelo seu interesse em ajudar os necessitados sociais. Foi também autor de vários livros de teor espírita. Não poupava esforços em benefício da Causa, sacrificando tempo, dinheiro e a própria saúde para manter-se sempre no trabalho edificante, tendo sido, por isso mesmo, conhecido nos meios espíritas como o Apóstolo de Matão.13 Cairbar Schutel foi um dos mais, senão o mais dinâmico trabalhador da Seara. “O segredo do seu dinamismo multiforme” – escreveu o prof. Ismael Gomes Braga – “está em que ele vivia realmente a Doutrina, não somente a pregava”. Cercado da consideração de seus familiares e de numerosos espíritas, desencarnou no dia 30 de janeiro de 1938. O povo de Matão havia perdido materialmente o “Pai da pobreza”. Todos os espíritas do Brasil e quiçá do mundo sentiram tão valiosa perda. O seu sepultamento foi uma apoteose. O comércio fechou, a indústria paralisou e a prefeitura de Matão hasteou o pavilhão nacional a meio-pau, envolto em crepe. A Federação Espírita Brasileira e seu órgão oficial – Reformador – fizeram-se representar nos funerais do velho Schutel pelo grande espiritista paulista Pedro de Camargo (Vinícius). No Teatro Municipal de Araraquara e em grande número de cidades do Brasil fizeram-se sessões solenes que se constituíram em verdadeiras consagrações públicas ao grande missionário. A imprensa leiga de São Paulo, do Rio, da Bahia, pelos seus melhores jornais, noticiou-lhe o passamento. Todos os órgãos espíritas brasileiros, e mesmo alguns estrangeiros, dedicaram-lhe importantes artigos.14
Finalizemos com um trecho do jornal O Mensageiro Espírita, de Lisboa, a ele referindo-se:
A projeção de sua obra é alguma coisa de grande, mesmo de extraordinário, nos anais do Espiritismo, e a sua memória, a memória de um obreiro heroico que ao ideal sacrificou toda a sua vida, há de perdurar através das gerações vindouras.15
4.5 LINS DE VASCONCELOS
A contribuição do Dr. Artur Lins de Vasconcelos para a expansão do Espiritismo no Brasil foi inestimável. Desenvolveu significativa obra de assistência social, apoiando constantemente as iniciativas do Movimento Espírita nesta área. Era um pacificador por excelência, tolerante em todos os sentidos: um verdadeiro homem de bem. Sempre à frente das iniciativas que reclamassem denodo e comprometimento, foi alçado à posição de líder pelos espíritas brasileiros. Nasceu no dia 27 de março de 1891, na cidade de Teixeira, alto sertão da Paraíba do Norte. Enfrentou as dificuldades daqueles que vivem afastados dos grandes centros urbanos, sem recursos para a própria subsistência. Começou, assim, a trabalhar muito cedo, enrijecendo o espírito empreendedor que já possuía. Sentia-se, entretanto, atraído para as terras do sul do país. Assim, depois de algum tempo no Nordeste, transferiu-se para a cidade de Curitiba, capital do Paraná, onde passou grande parte de sua existência. Aí iniciou seus estudos superiores, matriculando-se, no ano de 1918, na Escola Superior de Agronomia, em que se destacou por seu brilhantismo.Nessa época ainda não se ligara a qualquer manifestação religiosa, apesar de ter sempre aceitado a existência de Deus. Mas tinha muitas dúvidas acerca das diferenças sociais e as dificuldades da vida, interrogando-se a si mesmo sobre a razão de tantas desigualdades. Suas indagações, porém, somente seriam esclarecidas mais tarde quando, pelas mãos de um amigo dedicado à causa espírita, tomou conhecimento do Espiritismo. Tal fato ocorreu em 1912.16 Foi o início de seu grandioso trabalho em prol da Unificação do Movimento Espírita. Em 1915, como secretário geral da Federação Espírita do Paraná, ele participava com a alma em regozijo, da inauguração do Albergue Noturno daquela entidade [...] Em 1916, trabalhou ativamente no II Congresso Espírita Paranaense.17
Mais tarde, em 1925, na qualidade de presidente da referida federativa, protestou contra ato institucional do Governo do Estado, o qual havia doado terras para a instalação de dois bispados. Em virtude disso, sofreu perseguições e muitos aborrecimentos. Grande empreendedor que era, dedicou-se ao comércio madeireiro, começando a prosperar e a enriquecer. Em 1930, mudou-se para o Rio de Janeiro, ocasião em que foi eleito presidente honorário da Federação Espírita do Paraná (FEP), pelos assinalados serviços a ela prestados. Os bens materiais são multiplicados celeremente, passando a ser um homem milionário. Com a consolidação de sua posição financeira, passou a devotar-se inteiramente ao Espiritismo, a este oferecendo tudo o que lhe era possível.18 Sua cooperação humanitária, junto aos companheiros espíritas de vários Estados, foi multiforme: nos movimentos educativos da criança, no socorro às instituições de amparo à velhice e à infância abandonada, no empenho para a criação de Lares Infantis, Sanatórios, Hospitais, Ginásios, Creches, Institutos de Ensino etc., tudo em benefício do indivíduo e da coletividade, num trabalho contínuo que durou até os seus últimos dias de vida terrena. “A maior glória de Lins” – escreveu um seu biógrafo – “é não ter sido corrompido pelo fascínio do ouro”.19
No ano de 1948, [...] quando a “Gráfica Mundo Espírita” enfrentava uma crise seríssima, sua cooperação espontânea e sincera veio evitar o desparecimento dela, e, assumindo a sua direção, enfrentou todas as dificuldades decorrentes de sua atitude salvadora. Imprimiu nova orientação doutrinária a Mundo Espírita, periódico fundado em 1932, evitando que suas colunas servissem de veículo de ideais destruidores e separativistas. Respeitando a opinião do próximo, sabia da inutilidade de combates pessoais, quando eram esquecidas a ética e as normas de serenidade e respeito. [...] Esse jornal passou, depois, o órgão noticioso e doutrinário da Federação Espírita do Paraná. Ainda em 1948 empenhou-se na realização do I Congresso de Mocidades Espíritas do Brasil, apoiando a ideia do deputado Campos Vergal, transformada em realidade pela atuação de Leopoldo Machado. Foi uma de suas principais figuras, senão a maior, contribuindo, ainda, decisivamente, na parte financeira para a realização daquele certame. [...] Em fevereiro de 1949, fundou Lins de Vasconcelos a Ação Social Espírita – sonho maior de sua vida –, instituição que se destinava ao trabalho social do Espiritismo em todos os seus aspectos e sob todas as formas. As finalidades da Ação Social Espírita estão condensadas nos vinte e cinco itens inseridos na edição de 12 de março de 1949, de Mundo Espírita, abrangendo desde o auxílio às sociedades espíritas até o estímulo às artes e à ciência. [...] Quando dos preparativos para a realização do II Congresso Espírita Pan-americano, que se reuniu no Rio de Janeiro, no período de 3 a 12 de outubro de 1949, foi Lins de Vasconcelos chamado para participar da Comissão Organizadora, sendo-lhe entregue o cargo de Tesoureiro da Comissão, devendo-se ressaltar que de sua ação coordenadora e sensata deve-se o êxito alcançado por aquele certame. Empenhado na tarefa de conseguir a aproximação dos espíritas americanos, deu todo o apoio para que se reunissem no Rio de Janeiro os representantes das nações americanas.20
De certo, os grandes planos para o Movimento Espírita são traçados na Espiritualidade Superior e a união da família espírita é propósito a ser concretizado ao longo do tempo. Algumas pessoas, contudo, transformam-se em fatores de aceleração desse processo. Lins de Vasconcelos, indubitavelmente, foi uma delas. Seu sonho era reunir os seus irmãos de ideal num trabalho em comum.21 Quando da realização do II Congresso Espírita Pan-americano, estimando o esforço de muitos para o entrelaçamento de irmãos de outras pátrias, sentiu que era chegado o instante de unir os irmãos do “Coração do mundo e Pátria do Evangelho. Sentiu, por certo, que o Alto trabalhava nesse sentido e que se tornava preciso entrar em harmonia com os irmãos do Plano Invisível para que o sonho se convertesse em gloriosa realidade. E o dia 5 de outubro de 1949 foi, talvez, o dia mais feliz de sua vida. Foi o dia do “Pacto Áureo”, o dia áureo da confraternização. Se nada mais houvesse feito em prol da Causa – e foram tantos os benefícios que prestou ao Espiritismo –, sua ação para unir a família espírita brasileira, em torno da Casa de Ismael, lhe teria valido como uma certeza de que não fora vazia e inexpressiva sua vida no mundo. Como decorrência desse “Pacto Áureo”, foi, em seguida, organizada no Rio a “Caravana da Fraternidade”, composta de vários espíritas ilustres, entre eles o Dr. Lins de Vasconcelos, caravana que percorreu todo o norte e nordeste do País, numa entusiástica campanha em prol da unificação segundo as normas ditadas na grande Conferência Espírita realizada no Rio de Janeiro [em 1º de outubro de 1904].22
Segundo ainda informação de Zêus Wantuil, na obra Grandes espíritas do Brasil, já referida, o Dr. Artur Lins de Vasconcelos desencarnou, em 21 de março de 1957, na cidade de São Paulo, onde residia, sendo sepultado, a seu pedido, em Curitiba, cidade que muito amou.
4.6 VIANNA DE CARVALHO
Foi o major Dr. Manuel Vianna de Carvalho um dos maiores tribunos espíritas no Brasil, destacando-se pela sua eloquência, erudição e destemor na pregação do Espiritismo. Seu verbo inspirado, por meio de uma dicção impecável, de timbre sonoro e harmonioso, assumia, às vezes, tonalidades impressionantes, assomando-lhes aos lábios em tropos de empolgante beleza. Foi, na verdade, um mágico da palavra, esteta do sentimento e criador de sensibilidades, arrebanhando prosélitos e simpatizantes em sua “peregrinação” triunfante pelo Brasil afora.23
Nasceu na cidade de Icó (Ceará) aos 10 de dezembro de 1874. Por volta dos 18 anos tomou conhecimento da Doutrina Espírita, mas sua atividade de propagandista espírita só se intensiva quando vai para o Rio de Janeiro, em 1895, no exercício da carreira militar, e liga-se ao Centro da União Espírita de Propaganda no Brasil, que funcionava em terras cariocas. Transfere-se, em 1896, para Porto Alegre, continuando seu trabalho de divulgação do Espiritismo. Volta para o Rio de Janeiro, em 1898, e toma parte ativa no Congresso Espírita que se realizou por essa época. Indo, tempos depois, para Cuiabá (Mato Grosso), funda aí o Centro Espírita Cuiabano, dotando-o de todos os recursos necessários a uma intensa propaganda doutrinária. Em 1907, regressa ao Rio e passa a frequentar várias sociedades espíritas, inclusive a Federação Espírita Brasileira, da qual foi orador oficial e articulista de seu órgão de divulgação: Reformador. Em virtude de sua carreira militar, Vianna de Carvalho teve a oportunidade de semear o Espiritismo em diversas cidades brasileiras – do sul, centro e nordeste do país –, prosseguindo em sua faina doutrinária, quer pela palavra, quer pela escrita. Além disso, fundava e reorganizava grupos espíritas, onde se fizessem necessários.24
Reformador assinalou a seu respeito:
[...] Quando houver de escrever-se a história da evolução espírita em nossa Pátria, o artista tribuno e vibrante polemista terá seu lugar de destaque pela feição múltipla da sua atividade inconfundível.25 No ano de 1920 [...], voltou ao Rio de Janeiro, trabalhando em muitos núcleos, entre os quais o Abrigo Teresa de Jesus, a União Espírita Suburbana, o Grêmio Nazareno, o Centro Antônio de Pádua, a União dos Trabalhadores de Jesus, a Tenda Espírita de Caridade, o Centro José de Abreu, o Grupo Espírita Sebastião etc. Por essa época, por meio de Reformador, incentivou a criação, em todas as Sociedades Espíritas, de escolas de moral cristã destinadas às crianças, declarando que esse problema não deveria ser descurado [...] Querido e respeitado em todos os meios espíritas, desde o mais obscuro ao mais culto, Vianna procurou promover a unificação dos centros, convocando, para isso, uma reunião de presidentes de Agremiações, na rua Camerino (RJ), onde se procurou dar uma feição nova à prática do Espiritismo [...].26
Em 1923, no Nordeste, desenvolveu intensas atividades em Recife (Pernambuco) e Aracaju (Sergipe), orientando e estimulando o Movimento Espírita da região. Foi em Aracaju, no ano de 1926, que adoeceu gravemente, tendo sido levado, a bordo do paquete Íris, para internação em hospital de Salvador. Desencarnou, porém, durante a viagem, na altura de Amaralina, às 6h30 do dia 13 de outubro de 1926.27 Na imprensa e na tribuna, foi o arauto da Boa-Nova espírita, salientando-se entre os mais destacados propagandistas [...]. Seus improvisos tribunícios, abrilhantados pelo arroubo do verbo candente que magnetizava e empolgava os auditórios, foram acontecimentos marcantes na História do Espiritismo em nossa terra. “Como bandeirante da ideia, como desbravador de searas” – assinalou Reformador – “é força convir que a sua obra doutrinária não tem paralelo no Brasil, ninguém fez mais nem fez melhor”.28
Uma vez na Espiritualidade, Viana (ou Vianna, como hoje prefere assinar) de Carvalho continua a empreender esforços em prol da divulgação do Espiritismo e da Unificação do Movimento Espírita, em especial, inspirando o médium Divaldo Pereira Franco, quer pela palavra, quer pela produção escrita. Pode-se destacar, quanto a esta última forma de atuação, a obra psicográfica Atualidade do pensamento espírita, em que lança as luzes do Espiritismo sobre diversas questões inquietantes, que afloram, atualmente, nas mais diversas áreas da compreensão humana. *** Em suma, pode-se dizer que Bezerra de Menezes, Angel Aguarod, Batuíra, Cairbar Schutel, Lins de Vasconcelos e Vianna de Carvalho – todos eles incansáveis trabalhadores – são, de certo, luzes imperecíveis, que aclararam os caminhos para o congraçamento da família espírita em torno do ideal da Unificação. E continuam eles desbravando as terras dos corações, agora no Mundo Espiritual, inspirando-nos e fortalecendo-nos no cumprimento do dever.