AS VIAGENS DE ALLAN KARDEC: AS PRIMEIRAS AÇÕES DE ALLAN KARDEC
No decorrer dos anos de 1860, 1861, 1862, 1864 e 1867, Allan Kardec empreendeu várias viagens pelo interior da França e da Bélgica, no interesse do Espiritismo nascente. Dentre todas essas viagens, destaca-se a de 1862, em que se deteve particularmente nas cidades de Lyon e Bordeaux. Esta última viagem mereceu o lançamento, no mesmo ano, de um opúsculo, no qual apresenta ricas observações sobre o Espiritismo, que, então, comemorava seu quinto aniversário, além de várias instruções sobre a formação de grupos e sociedades espíritas e uma série de conselhos e orientações aos espíritas.1 Como ele mesmo diz, havia duplo objetivo nessas viagens: [...] dar instruções onde estas fossem necessárias e, ao mesmo tempo, nos instruirmos. Queríamos ver as coisas por nossos próprios olhos, para julgar o estado real da Doutrina e da maneira pela qual ela é compreendida; estudar as causas locais favoráveis ou desfavoráveis ao seu progresso, sondar as opiniões, apreciar os efeitos da oposição e da crítica e conhecer o julgamento que se faz de certas coisas. Estávamos desejosos, sobretudo, de apertar a mão de nossos irmãos espíritas e de lhes exprimir pessoalmente a nossa mui sincera simpatia, retribuindo as constantes provas de amizade que nos dão em suas cartas; de dar, em nome da Sociedade de Paris, e em nosso próprio nome, em particular, um testemunho especial de gratidão e de admiração a esses pioneiros da obra que, por sua iniciativa, seu zelo desinteressado e seu devotamento, constituem os seus primeiros e mais firmes sustentáculos, marchando sempre para a frente, sem se inquietarem com as pedras que lhes atiram e pondo o interesse da causa acima do interesse pessoal [...].2
Kardec deixou várias instruções aos espíritas dessas cidades por que passou. São orientações, contudo, que não se circunscrevem a uma época, mas interessam aos espíritas de todos os tempos. Vamos alinhar algumas delas, dadas, em sua maioria, aos espíritas de Lyon e Bordeaux na viagem de 1862. Dizem respeito, de um lado, à força do Espiritismo em seus primeiros tempos de propagação pelo mundo e, de outro, à postura do Codificador diante dos acontecimentos que envolveram o Espiritismo nascente.
4.1 A FORÇA DO ESPIRITISMO NOS PRIMEIROS
TEMPOS DE PROPAGAÇÃO
Nossa primeira turnê espírita [assinala Kardec], realizada em 1860, limitou-se a Lyon e algumas cidades que se encontravam em nosso trajeto. No ano seguinte acrescentamos Bordeaux ao itinerário e, este ano [1862], além dessas duas cidades principais, visitamos uma vintena de localidades e assistimos a mais de 50 reuniões, durante uma viagem de sete semanas e um percurso de 693 léguas. [...] O primeiro resultado que pudemos constatar foi o imenso progresso das crenças espíritas. Um único fato poderá nos dar uma ideia disto. Quando de nossa primeira viagem a Lyon, em 1860, ali havia, no máximo, algumas centenas de adeptos; no ano seguinte já existiam 5 a 6 mil, tornando-se impossível saber o seu número agora. Pode-se, no entanto, e sem nenhum exagero, avaliá-los entre 25 e 30 mil. [...] Este é um fato comprovado, que ninguém pode negar. Mas há outro fato notável, que também pudemos constatar: numa porção de localidades onde era desconhecido, o Espiritismo penetrou graças às pregações desfavoráveis que lhe eram feitas, inspirando nas pessoas o desejo de saber em que ele se fundamentava. Em seguida, por que o achassem racional, conquistou partidários. Poderíamos citar, entre outras, uma pequena cidade do departamento de Indre-et-Loire, em que jamais se ouvira falar de Espiritismo – pelo menos nos últimos seis meses; ali, acorreu a um pregador a ideia de fulminar, do púlpito, o que ele chamava, falsa e impropriamente, a religião do século XIX e o culto a satã. A população, surpresa, quis saber do que se tratava; mandaram trazer livros e, hoje, ali, os adeptos organizaram um Centro. Razão tinham os Espíritos quando nos disseram, alguns anos atrás, que os nossos próprios adversários, sem o quererem serviriam à nossa causa. Está provado, em toda parte, que a propagação do Espiritismo tem ocorrido em razão dos ataques. Ora, para que uma ideia se vulgarize dessa maneira é preciso que agrade e que a julguem mais racional do que outras que lhe são opostas. Assim, um dos resultados de nossa viagem foi poder constatar, com os próprios olhos, o que já sabíamos por nossa correspondência. É preciso admitir, todavia, que essa marcha ascendente está longe de ser uniforme. Se há regiões onde as ideias espíritas parecem germinar à medida que são semeadas, outras há onde penetram mais dificilmente, em virtude de causas locais, ligadas ao caráter de seus habitantes e, sobretudo, à natureza de suas ocupações. [...] Por toda parte a ideia espírita começa nas classes esclarecidas ou de mediana cultura. [...] Da classe média ela se estende às mais elevadas e às mais baixas categorias da escala social [...]. Um fato talvez mais importante ainda que o número de adeptos, deduzido de nossas observações, é a seriedade com que se considera a Doutrina. Onde quer que se investigue, pode-se dizer que o lado filosófico, moral e instrutivo é buscado com avidez. Em parte alguma vimos a fenomenologia espírita ser tomada como objeto de entretenimento, nem as experiências como distração. As perguntas fúteis e a curiosidade são descartadas em todos os lugares. [...] Todos estão unidos em torno dos propósitos defendidos pela Sociedade de Paris e não têm por bandeira senão os princípios ensinados em O livro dos espíritos.2
Em relação aos médiuns nesse período inicial, esclarece Kardec que eles [...] igualmente se multiplicam, havendo poucos grupos que não contêm vários deles, sem falar da quantidade, bem mais considerável, dos que não pertencem a nenhum agrupamento, servindo-se de sua faculdade apenas para si e para os amigos. Nesse número, existe um núcleo de grande exclusividade, dotado de médiuns escreventes apropriados aos diferentes gêneros de manifestações [...]. Lyon dispõe de vários médiuns desenhistas notáveis [...]. Há muitos médiuns videntes, cuja faculdade pudemos constatar. [...] Mas, o que é característico, é a evidente diminuição dos médiuns de efeitos físicos, à medida que se multiplicam os de comunicações inteligentes. É que, como bem o disseram os Espíritos, o período da curiosidade já passou; estamos, agora, no segundo período: o da filosofia. O terceiro, que em breve começará, será o de sua aplicação [do Espiritismo] à reforma da Humanidade.2
Outro sinal característico desses primeiros tempos, segundo assinala o Codificador [...] é o número incalculável de adeptos que nada viram e que, nem por isso, deixam de ser menos fervorosos, simplesmente porque leram e compreenderam. Esse número aumenta sem cessar [...].2
Kardec refere-se também à coragem dos espíritas:
Um fato não menos característico do estado atual do Espiritismo é o desenvolvimento da coragem de opinião. Se ainda existem adeptos contidos pelo temor, hoje seu número é bem menos considerável ao lado dos que confessam abertamente suas crenças e já não temem dizer-se espíritas, como não receariam passar-se por católicos, judeus ou protestantes. A arma do ridículo, à força de ferir sem provocar danos, acabou por se desgastar e, diante de tantas pessoas notáveis, que proclamam altivamente a nova filosofia, viu-se obrigada a curvar-se. Uma única arma permanece ainda em suspenso: a ideia do diabo; mas é o próprio ridículo que faz justiça. Aliás, não foi apenas esse gênero de coragem que percebemos, mas também o da ação, o do devotamento e do sacrifício, isto é, dos que corajosamente, em certas localidades, se colocam na vanguarda do movimento das ideias novas, assumindo riscos e afrontando ameaças e perseguições [...].2
Todo esse avanço do Espiritismo nascente, em tão pouquíssimos anos, deve-se inegavelmente à sua força de convencimento. Kardec apresenta as razões dessa força:
A força do Espiritismo tem duas causas preponderantes: a primeira é tornar felizes os que o conhecem, o compreendem e o praticam. [...] A segunda é que o Espiritismo não se assenta na cabeça de homem algum, sujeitando-se, assim, a ser derrubado; não tem um foco único, que possa ser extinto; seu foco está em toda parte, porque em toda parte há médiuns que podem comunicar-se com os Espíritos; não há família que não os possua em seu seio e que não realizem estas palavras do Cristo: Vossos filhos e filhas profetizarão, e terão visões; porque, enfim, o Espiritismo é uma ideia e não há barreiras impenetráveis à ideia, nem bastante altas que estas não possam transpor [...].3 Um adversário asseverou em certo jornal que o Espiritismo é cheio de seduções. Ele não podia, mau grado seu, fazer maior elogio da Doutrina, condenando-se, ao mesmo tempo, de maneira mais peremptória. Dizer que uma coisa é sedutora é dizer que agrada. Ora, eis aí o grande segredo da propagação do Espiritismo. Que, então, lhe oponham algo de mais sedutor para suplantá-lo! Se não o fazem, é que não têm nada de melhor a oferecer. Por que ele agrada? É muito fácil dizê-lo.
Ele agrada:
1) Porque satisfaz à aspiração instintiva do homem quanto ao futuro;
2) Porque apresenta o futuro sob um aspecto que a razão pode admitir;
3) Porque a certeza da vida futura faz com que o homem sofra sem se queixar das misérias da vida presente;
4) Porque, com a pluralidade das existências, essas misérias têm uma razão de ser, são explicáveis e, em vez de acusarem a Providência, consideram-nas justas e as aceitam sem murmurar;
5) Porque o homem é feliz por saber que os seres que lhe são caros não estão perdidos para sempre, que os encontrará novamente e que estão quase sempre ao seu lado;
6) Porque todas as máximas dadas pelos Espíritos tendem a tornar melhores os homens uns para com os outros. Existem ainda outros motivos, que só os espíritas são capazes de compreender. Em compensação, que meios de sedução oferece o materialismo? O nada. Eis aí toda a consolação que ele dá às misérias da vida! 4
4.2 A POSTURA DE ALLAN KARDEC DIANTE DOS
DESAFIOS DO ESPIRITISMO NASCENTE
O posicionamento de Kardec diante de algumas situações, que surgiam nessa fase inicial do Espiritismo, constitui exemplo significativo para os espíritas de todas as épocas.
4.2.1 Os adversários do Espiritismo
Um outro resultado de nossa viagem foi permitir-nos julgar a opinião relativa a certas publicações, que se afastam mais ou menos dos nossos princípios, algumas das quais chegam mesmo a ser-lhes francamente hostis. Digamos, para começar, que encontramos uma aprovação unânime para o nosso silêncio, relativamente aos ataques que temos sofrido, haja vista as cartas de felicitações que diariamente temos recebido a este respeito. Em vários discursos que foram pronunciados, aplaudiu-se favoravelmente a nossa moderação; um deles, entre outros, contém a passagem seguinte: “A malevolência dos vossos inimigos produziu resultado inteiramente contrário ao que esperavam: o de engrandecer-vos aos olhos dos vossos numerosos discípulos e de apertar os laços que os unem a vós. Por vossa indiferença, mostrais que tendes consciência de vossa força. Opondo mansidão às injúrias, dais um exemplo que saberemos aproveitar.” [...]2
Em sequência, comenta Kardec: Os ataques pessoais jamais nos abalaram. Outro tanto não se pode dizer dos que são dirigidos contra a Doutrina. Algumas vezes respondemos diretamente a certas críticas, quando isso nos pareceu necessário, a fim de provar, se preciso for, que sabemos entrar na liça. E o teríamos feito com mais frequência, se houvéssemos constatado que esses ataques traziam prejuízo real ao Espiritismo; mas, quando ficou provado pelos fatos que, longe de prejudicá-lo, serviam à causa, louvamos a sabedoria dos Espíritos, empregando seus próprios inimigos para propagar a Doutrina e, graças à censura, fazendo penetrar a ideia em meios onde jamais teria penetrado pelo elogio. Este é um fato que nossa viagem constatou de maneira peremptória, uma vez que, nesses meios, o Espiritismo recrutou mais de um partidário. Quando as coisas caminham por si sós, por que, então, se bater em ataques sem proveito? [...]2
4.2.2 Os médiuns interesseiros
Não pretendo absolutamente dizer que entre os médiuns interessados não existam muitos que sejam honestos e dignos de estima. Mas a experiência tem provado, a mim e a tantos outros, que o interesse é um poderoso estimulante para a fraude, porque se quer ganhar dinheiro; e se os Espíritos não ajudam, o que acontece muitas vezes, já que não estão por conta de nossos caprichos, a astúcia, fecunda em expedientes, encontra facilmente meios de supri-los. [...]5
E acrescenta:
Ao lado da especulação material, há a que se poderia chamar de especulação moral, isto é, a satisfação do orgulho, do amor-próprio; é o caso daqueles que, mesmo sem interesse pecuniário, julgavam fazer do Espiritismo um pedestal honorífico para se porem em evidência. Não os favoreci, e meus escritos, assim como meus conselhos, se contrapuseram a mais de uma premeditação, mostrando que as qualidades do verdadeiro espírita são a abnegação e a humildade, segundo esta máxima do Cristo: Quem se exalta será humilhado.5
4.2.3 Os adeptos que se afastam
Não devo, entretanto, omitir uma censura que me foi dirigida: a de nada fazer para trazer novamente a mim as pessoas que se afastam. Isso é verdadeiro e, se é uma censura fundada, eu a mereço, porque jamais dei um passo nesse sentido; eis os motivos de minha indiferença:
Os que vêm a mim, fazem-no porque isso lhes convém; é menos por minha pessoa do que pela simpatia aos princípios que professo. Os que se afastam, fazem-no porque não lhes convenho ou porque não concordam com a nossa maneira de ver as coisas. Por que, então, eu iria contrariá-los, impondo-me a eles? Parece-me mais conveniente deixá-los em paz. Aliás, eu não teria mesmo tempo para isto, pois, como é sabido, minhas ocupações não me deixam um instante de repouso, e por um que parte, há mil que chegam; dedico-me, antes de tudo, a estes últimos, e é isso que faço. Orgulho? desprezo por outrem? Oh! seguramente não; não desprezo pessoa alguma; lamento os que agem mal e peço a Deus e aos bons Espíritos que façam renascer neles melhores sentimentos; eis tudo. Se voltam, são sempre bem-vindos, mas correr atrás deles, jamais o faço, em razão do tempo que reclamam as pessoas de boa vontade; e, depois, porque não concedo a certas pessoas a importância que elas se atribuem. Para mim, um homem é um homem e nada mais; meço seu valor pelos seus atos, por seus sentimentos, e não pela posição que ocupa. Ainda que esteja altamente colocado, se agir mal, se for egoísta e presunçoso de sua dignidade, é a meus olhos inferior a um simples operário que age bem, e eu aperto mais cordialmente a mão de um pequeno que deixa falar o coração, do que a de um grande, cujo coração nada diz; a primeira me aquece, a segunda me enregela. Personagens da mais alta condição social me honram com sua visita, sem que, por causa delas, jamais um proletário tenha ficado na antecâmara. Muitas vezes, em meu salão, o príncipe fica lado a lado com o artesão; e se se sentir humilhado, dir-lhe-ei que não é digno de ser espírita. Mas, sinto-me feliz em dizer, muitas vezes os tenho visto apertarem-se as mãos fraternalmente, e digo de mim para mim: “Espiritismo, eis um dos seus milagres; é o prelúdio de muitos outros prodígios!” Não dependeria senão de mim abrir as portas da alta sociedade; contudo, jamais fui nelas bater. Isto me tomaria um tempo que creio poder empregar mais utilmente. Coloco em primeira linha consolar os que sofrem, levantar a coragem dos abatidos, arrancar um homem de suas paixões, do desespero, do suicídio, detê-lo talvez no abismo do crime. Isso não vale mais do que os lambris dourados? Tenho milhares de cartas que para mim são mais valiosas do que todas as honras da Terra, e que encaro como verdadeiros títulos de nobreza. Assim, não vos admireis se deixo partir aqueles que não me procuram.5
Como se vê, as instruções de Allan Kardec, acima reproduzidas, valem para os espíritas de ontem, de hoje e do futuro e, se seguidas com zelo, trarão, de certo, grandes benefícios ao trabalho de propagação do Espiritismo.
Kardec deixou várias instruções aos espíritas dessas cidades por que passou. São orientações, contudo, que não se circunscrevem a uma época, mas interessam aos espíritas de todos os tempos. Vamos alinhar algumas delas, dadas, em sua maioria, aos espíritas de Lyon e Bordeaux na viagem de 1862. Dizem respeito, de um lado, à força do Espiritismo em seus primeiros tempos de propagação pelo mundo e, de outro, à postura do Codificador diante dos acontecimentos que envolveram o Espiritismo nascente.
4.1 A FORÇA DO ESPIRITISMO NOS PRIMEIROS
TEMPOS DE PROPAGAÇÃO
Nossa primeira turnê espírita [assinala Kardec], realizada em 1860, limitou-se a Lyon e algumas cidades que se encontravam em nosso trajeto. No ano seguinte acrescentamos Bordeaux ao itinerário e, este ano [1862], além dessas duas cidades principais, visitamos uma vintena de localidades e assistimos a mais de 50 reuniões, durante uma viagem de sete semanas e um percurso de 693 léguas. [...] O primeiro resultado que pudemos constatar foi o imenso progresso das crenças espíritas. Um único fato poderá nos dar uma ideia disto. Quando de nossa primeira viagem a Lyon, em 1860, ali havia, no máximo, algumas centenas de adeptos; no ano seguinte já existiam 5 a 6 mil, tornando-se impossível saber o seu número agora. Pode-se, no entanto, e sem nenhum exagero, avaliá-los entre 25 e 30 mil. [...] Este é um fato comprovado, que ninguém pode negar. Mas há outro fato notável, que também pudemos constatar: numa porção de localidades onde era desconhecido, o Espiritismo penetrou graças às pregações desfavoráveis que lhe eram feitas, inspirando nas pessoas o desejo de saber em que ele se fundamentava. Em seguida, por que o achassem racional, conquistou partidários. Poderíamos citar, entre outras, uma pequena cidade do departamento de Indre-et-Loire, em que jamais se ouvira falar de Espiritismo – pelo menos nos últimos seis meses; ali, acorreu a um pregador a ideia de fulminar, do púlpito, o que ele chamava, falsa e impropriamente, a religião do século XIX e o culto a satã. A população, surpresa, quis saber do que se tratava; mandaram trazer livros e, hoje, ali, os adeptos organizaram um Centro. Razão tinham os Espíritos quando nos disseram, alguns anos atrás, que os nossos próprios adversários, sem o quererem serviriam à nossa causa. Está provado, em toda parte, que a propagação do Espiritismo tem ocorrido em razão dos ataques. Ora, para que uma ideia se vulgarize dessa maneira é preciso que agrade e que a julguem mais racional do que outras que lhe são opostas. Assim, um dos resultados de nossa viagem foi poder constatar, com os próprios olhos, o que já sabíamos por nossa correspondência. É preciso admitir, todavia, que essa marcha ascendente está longe de ser uniforme. Se há regiões onde as ideias espíritas parecem germinar à medida que são semeadas, outras há onde penetram mais dificilmente, em virtude de causas locais, ligadas ao caráter de seus habitantes e, sobretudo, à natureza de suas ocupações. [...] Por toda parte a ideia espírita começa nas classes esclarecidas ou de mediana cultura. [...] Da classe média ela se estende às mais elevadas e às mais baixas categorias da escala social [...]. Um fato talvez mais importante ainda que o número de adeptos, deduzido de nossas observações, é a seriedade com que se considera a Doutrina. Onde quer que se investigue, pode-se dizer que o lado filosófico, moral e instrutivo é buscado com avidez. Em parte alguma vimos a fenomenologia espírita ser tomada como objeto de entretenimento, nem as experiências como distração. As perguntas fúteis e a curiosidade são descartadas em todos os lugares. [...] Todos estão unidos em torno dos propósitos defendidos pela Sociedade de Paris e não têm por bandeira senão os princípios ensinados em O livro dos espíritos.2
Em relação aos médiuns nesse período inicial, esclarece Kardec que eles [...] igualmente se multiplicam, havendo poucos grupos que não contêm vários deles, sem falar da quantidade, bem mais considerável, dos que não pertencem a nenhum agrupamento, servindo-se de sua faculdade apenas para si e para os amigos. Nesse número, existe um núcleo de grande exclusividade, dotado de médiuns escreventes apropriados aos diferentes gêneros de manifestações [...]. Lyon dispõe de vários médiuns desenhistas notáveis [...]. Há muitos médiuns videntes, cuja faculdade pudemos constatar. [...] Mas, o que é característico, é a evidente diminuição dos médiuns de efeitos físicos, à medida que se multiplicam os de comunicações inteligentes. É que, como bem o disseram os Espíritos, o período da curiosidade já passou; estamos, agora, no segundo período: o da filosofia. O terceiro, que em breve começará, será o de sua aplicação [do Espiritismo] à reforma da Humanidade.2
Outro sinal característico desses primeiros tempos, segundo assinala o Codificador [...] é o número incalculável de adeptos que nada viram e que, nem por isso, deixam de ser menos fervorosos, simplesmente porque leram e compreenderam. Esse número aumenta sem cessar [...].2
Kardec refere-se também à coragem dos espíritas:
Um fato não menos característico do estado atual do Espiritismo é o desenvolvimento da coragem de opinião. Se ainda existem adeptos contidos pelo temor, hoje seu número é bem menos considerável ao lado dos que confessam abertamente suas crenças e já não temem dizer-se espíritas, como não receariam passar-se por católicos, judeus ou protestantes. A arma do ridículo, à força de ferir sem provocar danos, acabou por se desgastar e, diante de tantas pessoas notáveis, que proclamam altivamente a nova filosofia, viu-se obrigada a curvar-se. Uma única arma permanece ainda em suspenso: a ideia do diabo; mas é o próprio ridículo que faz justiça. Aliás, não foi apenas esse gênero de coragem que percebemos, mas também o da ação, o do devotamento e do sacrifício, isto é, dos que corajosamente, em certas localidades, se colocam na vanguarda do movimento das ideias novas, assumindo riscos e afrontando ameaças e perseguições [...].2
Todo esse avanço do Espiritismo nascente, em tão pouquíssimos anos, deve-se inegavelmente à sua força de convencimento. Kardec apresenta as razões dessa força:
A força do Espiritismo tem duas causas preponderantes: a primeira é tornar felizes os que o conhecem, o compreendem e o praticam. [...] A segunda é que o Espiritismo não se assenta na cabeça de homem algum, sujeitando-se, assim, a ser derrubado; não tem um foco único, que possa ser extinto; seu foco está em toda parte, porque em toda parte há médiuns que podem comunicar-se com os Espíritos; não há família que não os possua em seu seio e que não realizem estas palavras do Cristo: Vossos filhos e filhas profetizarão, e terão visões; porque, enfim, o Espiritismo é uma ideia e não há barreiras impenetráveis à ideia, nem bastante altas que estas não possam transpor [...].3 Um adversário asseverou em certo jornal que o Espiritismo é cheio de seduções. Ele não podia, mau grado seu, fazer maior elogio da Doutrina, condenando-se, ao mesmo tempo, de maneira mais peremptória. Dizer que uma coisa é sedutora é dizer que agrada. Ora, eis aí o grande segredo da propagação do Espiritismo. Que, então, lhe oponham algo de mais sedutor para suplantá-lo! Se não o fazem, é que não têm nada de melhor a oferecer. Por que ele agrada? É muito fácil dizê-lo.
Ele agrada:
1) Porque satisfaz à aspiração instintiva do homem quanto ao futuro;
2) Porque apresenta o futuro sob um aspecto que a razão pode admitir;
3) Porque a certeza da vida futura faz com que o homem sofra sem se queixar das misérias da vida presente;
4) Porque, com a pluralidade das existências, essas misérias têm uma razão de ser, são explicáveis e, em vez de acusarem a Providência, consideram-nas justas e as aceitam sem murmurar;
5) Porque o homem é feliz por saber que os seres que lhe são caros não estão perdidos para sempre, que os encontrará novamente e que estão quase sempre ao seu lado;
6) Porque todas as máximas dadas pelos Espíritos tendem a tornar melhores os homens uns para com os outros. Existem ainda outros motivos, que só os espíritas são capazes de compreender. Em compensação, que meios de sedução oferece o materialismo? O nada. Eis aí toda a consolação que ele dá às misérias da vida! 4
4.2 A POSTURA DE ALLAN KARDEC DIANTE DOS
DESAFIOS DO ESPIRITISMO NASCENTE
O posicionamento de Kardec diante de algumas situações, que surgiam nessa fase inicial do Espiritismo, constitui exemplo significativo para os espíritas de todas as épocas.
4.2.1 Os adversários do Espiritismo
Um outro resultado de nossa viagem foi permitir-nos julgar a opinião relativa a certas publicações, que se afastam mais ou menos dos nossos princípios, algumas das quais chegam mesmo a ser-lhes francamente hostis. Digamos, para começar, que encontramos uma aprovação unânime para o nosso silêncio, relativamente aos ataques que temos sofrido, haja vista as cartas de felicitações que diariamente temos recebido a este respeito. Em vários discursos que foram pronunciados, aplaudiu-se favoravelmente a nossa moderação; um deles, entre outros, contém a passagem seguinte: “A malevolência dos vossos inimigos produziu resultado inteiramente contrário ao que esperavam: o de engrandecer-vos aos olhos dos vossos numerosos discípulos e de apertar os laços que os unem a vós. Por vossa indiferença, mostrais que tendes consciência de vossa força. Opondo mansidão às injúrias, dais um exemplo que saberemos aproveitar.” [...]2
Em sequência, comenta Kardec: Os ataques pessoais jamais nos abalaram. Outro tanto não se pode dizer dos que são dirigidos contra a Doutrina. Algumas vezes respondemos diretamente a certas críticas, quando isso nos pareceu necessário, a fim de provar, se preciso for, que sabemos entrar na liça. E o teríamos feito com mais frequência, se houvéssemos constatado que esses ataques traziam prejuízo real ao Espiritismo; mas, quando ficou provado pelos fatos que, longe de prejudicá-lo, serviam à causa, louvamos a sabedoria dos Espíritos, empregando seus próprios inimigos para propagar a Doutrina e, graças à censura, fazendo penetrar a ideia em meios onde jamais teria penetrado pelo elogio. Este é um fato que nossa viagem constatou de maneira peremptória, uma vez que, nesses meios, o Espiritismo recrutou mais de um partidário. Quando as coisas caminham por si sós, por que, então, se bater em ataques sem proveito? [...]2
4.2.2 Os médiuns interesseiros
Não pretendo absolutamente dizer que entre os médiuns interessados não existam muitos que sejam honestos e dignos de estima. Mas a experiência tem provado, a mim e a tantos outros, que o interesse é um poderoso estimulante para a fraude, porque se quer ganhar dinheiro; e se os Espíritos não ajudam, o que acontece muitas vezes, já que não estão por conta de nossos caprichos, a astúcia, fecunda em expedientes, encontra facilmente meios de supri-los. [...]5
E acrescenta:
Ao lado da especulação material, há a que se poderia chamar de especulação moral, isto é, a satisfação do orgulho, do amor-próprio; é o caso daqueles que, mesmo sem interesse pecuniário, julgavam fazer do Espiritismo um pedestal honorífico para se porem em evidência. Não os favoreci, e meus escritos, assim como meus conselhos, se contrapuseram a mais de uma premeditação, mostrando que as qualidades do verdadeiro espírita são a abnegação e a humildade, segundo esta máxima do Cristo: Quem se exalta será humilhado.5
4.2.3 Os adeptos que se afastam
Não devo, entretanto, omitir uma censura que me foi dirigida: a de nada fazer para trazer novamente a mim as pessoas que se afastam. Isso é verdadeiro e, se é uma censura fundada, eu a mereço, porque jamais dei um passo nesse sentido; eis os motivos de minha indiferença:
Os que vêm a mim, fazem-no porque isso lhes convém; é menos por minha pessoa do que pela simpatia aos princípios que professo. Os que se afastam, fazem-no porque não lhes convenho ou porque não concordam com a nossa maneira de ver as coisas. Por que, então, eu iria contrariá-los, impondo-me a eles? Parece-me mais conveniente deixá-los em paz. Aliás, eu não teria mesmo tempo para isto, pois, como é sabido, minhas ocupações não me deixam um instante de repouso, e por um que parte, há mil que chegam; dedico-me, antes de tudo, a estes últimos, e é isso que faço. Orgulho? desprezo por outrem? Oh! seguramente não; não desprezo pessoa alguma; lamento os que agem mal e peço a Deus e aos bons Espíritos que façam renascer neles melhores sentimentos; eis tudo. Se voltam, são sempre bem-vindos, mas correr atrás deles, jamais o faço, em razão do tempo que reclamam as pessoas de boa vontade; e, depois, porque não concedo a certas pessoas a importância que elas se atribuem. Para mim, um homem é um homem e nada mais; meço seu valor pelos seus atos, por seus sentimentos, e não pela posição que ocupa. Ainda que esteja altamente colocado, se agir mal, se for egoísta e presunçoso de sua dignidade, é a meus olhos inferior a um simples operário que age bem, e eu aperto mais cordialmente a mão de um pequeno que deixa falar o coração, do que a de um grande, cujo coração nada diz; a primeira me aquece, a segunda me enregela. Personagens da mais alta condição social me honram com sua visita, sem que, por causa delas, jamais um proletário tenha ficado na antecâmara. Muitas vezes, em meu salão, o príncipe fica lado a lado com o artesão; e se se sentir humilhado, dir-lhe-ei que não é digno de ser espírita. Mas, sinto-me feliz em dizer, muitas vezes os tenho visto apertarem-se as mãos fraternalmente, e digo de mim para mim: “Espiritismo, eis um dos seus milagres; é o prelúdio de muitos outros prodígios!” Não dependeria senão de mim abrir as portas da alta sociedade; contudo, jamais fui nelas bater. Isto me tomaria um tempo que creio poder empregar mais utilmente. Coloco em primeira linha consolar os que sofrem, levantar a coragem dos abatidos, arrancar um homem de suas paixões, do desespero, do suicídio, detê-lo talvez no abismo do crime. Isso não vale mais do que os lambris dourados? Tenho milhares de cartas que para mim são mais valiosas do que todas as honras da Terra, e que encaro como verdadeiros títulos de nobreza. Assim, não vos admireis se deixo partir aqueles que não me procuram.5
Como se vê, as instruções de Allan Kardec, acima reproduzidas, valem para os espíritas de ontem, de hoje e do futuro e, se seguidas com zelo, trarão, de certo, grandes benefícios ao trabalho de propagação do Espiritismo.