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DEUS: CONCEITO E PROVAS FILOSÓFICAS DE SUA EXISTÊNCIA

O homem que desconhece Deus e não quer saber que forças, que recursos, que socorros d’Ele promanam, esse é comparável a um indigente que habita ao lado de palácios, cheios de tesouros, e se arrisca a morrer de miséria diante da porta que lhe está aberta e pela qual tudo o convida a entrar.15

A crença em Deus [...] se afirma e se impõe, fora e acima de todos os sistemas, de todas as filosofias, de todas as crenças [...]. [...] A questão de Deus é o mais grave de todos os problemas suspensos sobre nossas cabeças e cuja solução se liga, de maneira restrita, imperiosa, ao problema do ser humano e de seu destino, ao problema da vida individual e da vida social. O conhecimento da verdade sobre Deus, sobre o mundo e a vida é o que há de mais essencial, de mais necessário, porque é Ele que nos sustenta, nos inspira e nos dirige, mesmo à nossa revelia.10 Poder-se-ia argumentar que a crença em Deus resulta da educação recebida, consequência das ideias adquiridas. Entretanto, esclarecem os Espíritos da Codificação: “Se assim fosse, por que existiria nos vossos selvagens esse sentimento?”6 Refletindo a respeito, Kardec nos elucida em seu comentário: Se o sentimento da existência de um ser supremo fosse tão somente produto de um ensino, não seria universal e não existiria senão nos que houvessem podido receber esse ensino, conforme se dá com as noções científicas.6 Deus nos fala por todas as vozes do Infinito. E fala, não em uma Bíblia escrita há séculos, mas em uma bíblia que se escreve todos os dias, com estes característicos majestosos, que se chamam oceanos, montanhas e astros do céu; por todas as harmonias, doces e graves, que sobem do imo da Terra ou descem dos espaços etéreos. Fala ainda no santuário do ser, nas horas de silêncio e de meditação. Quando os ruídos discordantes da vida material se calam, então a voz interior, a grande voz desperta e se faz ouvir. Essa voz sai da profundeza da consciência e nos fala dos deveres, do progresso, da ascensão da criatura. Há em nós uma espécie de retiro íntimo, uma fonte profunda de onde podem jorrar ondas de vida, de amor, de virtude, de luz. Ali se manifesta esse reflexo, esse gérmen divino, escondido em toda alma humana.13 A história da ideia de Deus mostra-nos que ela sempre foi relativa ao grau intelectual dos povos e de seus legisladores, correspondendo aos movimentos civilizadores, à poesia dos climas, às raças, à florescência de diferentes povos; enfim, aos progressos espirituais da Humanidade. Descendo pelo curso dos tempos, assistimos sucessivamente aos desfalecimentos e tergiversações dessa ideia imperecível, que, às vezes fulgurante e outras vezes eclipsada, pode, todavia, ser identificada sempre, nos fastos da Humanidade [...].17 [...] liga-se estreitamente à ideia de lei, e assim à de dever e de sacrifício. A ideia de Deus liga-se a todas as noções indispensáveis à ordem, à harmonia, à elevação dos seres e das sociedades. Eis por que, logo que a ideia de Deus se enfraquece, todas essas noções se debilitam; desaparecem, pouco a pouco, para dar lugar ao personalismo, à presunção, ao ódio por toda autoridade, por toda direção, por toda lei superior [...].14 Diremos, pois, que desconhecer, desprezar a crença em Deus e a comunhão do pensamento que a Ele se liga [...] seria, ao mesmo tempo, desconhecer o que há de maior e desprezar as potências interiores que fazem a nossa verdadeira riqueza. Seria calcar aos pés nossa própria felicidade, tudo que pode fazer nossa elevação, nossa glória, nossa ventura.15 A ideia de Deus impõe-se por todas as faculdades do nosso Espírito, ao mesmo tempo que nos fala aos nossos olhos os esplendores do Universo. A Inteligência suprema revela a Causa eterna, na qual todos os seres vêm haurir a força, a luz e a vida. Aí está o Espírito divino, o Espírito potente, que se venera sob tantas denominações; mas, sob todos esses nomes, é sempre o centro, a Lei viva, a razão pela qual os seres e os mundos se sentem viver, se conhecem, se renovam e elevam.12

A crença em Deus é, além disso, questão essencial para o entendimento da Doutrina Espírita. Entretanto, para elucidar esse assunto de tão magna importância, [...] temos agora recursos mais elevados que os do pensamento humano; temos o ensino daqueles que deixaram a Terra, a apreciação das Almas que, tendo franqueado o túmulo, nos fazem ouvir, do fundo do mundo invisível, seus conselhos, seus apelos, suas exortações. Verdade é que nem todos os Espíritos são igualmente aptos a tratar dessas questões. [...] Nem todos estão igualmente desenvolvidos; não chegaram todos ao mesmo grau de evolução. [...] Acima, porém, da multidão das almas obscuras, ignorantes, atrasadas, há Espíritos eminentes, descidos das esferas [superiores] para esclarecer e guiar a Humanidade. [...] [...] todos aqueles cujos ensinamentos têm reconfortado as nossas almas, mitigado nossas misérias, sustentado nossos desfalecimentos, são unânimes em afirmar, em repetir, em reconhecer a alta Inteligência que governa os seres e os mundos. Eles dizem que essa Inteligência se revela mais brilhante e mais sublime à medida que se escalam os degraus da vida espiritual.11

Assim, nos esclarecem os Espíritos Superiores na primeira questão de

O livro dos espíritos:

Que é Deus? “Deus é a inteligência suprema, causa primária [primeira] de todas as coisas.”5 Pode-se levar mais longe do que temos feito a definição de Deus? Definir é limitar. Em face deste grande problema, a fraqueza humana aparece. Deus impõe-se ao nosso Espírito, porém escapa a toda análise. O Ser que enche o tempo e o espaço não será jamais medido por seres limitados pelo tempo e pelo espaço. Querer definir Deus seria circunscreve-lo e quase negá-lo. [...] Para resumir, tanto quanto podemos, tudo o que pensamos referente a Deus, diremos que Ele é a vida, a razão, a consciência em sua plenitude. É a causa eternamente operante de tudo o que existe. É a comunhão universal, onde cada ser vai sorver a existência, a fim de, em seguida, concorrer, na medida de suas faculdades crescentes e de sua elevação, para a harmonia do conjunto.16 [...] Desde a organização do mais pequenino inseto e da mais insignificante semente, até a lei que rege os mundos que circulam no Espaço, tudo atesta uma ideia diretora, uma combinação, uma previdência, uma solicitude que ultrapassam todas as combinações humanas. A causa é, pois, soberanamente inteligente.9 Constitui princípio elementar que pelos seus efeitos é que se julga de uma causa, mesmo quando ela se conserve oculta. [...] Em tudo, observando os efeitos é que se chega ao conhecimento das causas.1 Não podendo nenhum ser humano criar o que a Natureza produz, a causa primária [primeira] é, conseguintemente, uma inteligência superior à Humanidade. Quaisquer que sejam os prodígios que a inteligência humana tenha operado, ela própria tem uma causa e, quanto maior for o que opere, tanto maior há de ser a causa primária [primeira]. Aquela inteligência superior é que é a causa primária [primeira] de todas as coisas, seja qual for o nome que lhe deem.8 Pois bem! lançando o olhar em torno de si, sobre as obras da Natureza, notando a providência, a sabedoria, a harmonia que presidem a essas obras, reconhece o observador não haver nenhuma que não ultrapasse os limites da mais portentosa inteligência humana. Ora, desde que o homem não as pode produzir, é que elas são produto de uma inteligência superior à Humanidade, a menos que se sustente que há efeitos sem causa.2 A harmonia existente no mecanismo do Universo patenteia combinações e desígnios determinados e, por isso mesmo, revela um poder inteligente. Atribuir a formação primária ao acaso é insensatez, pois que o acaso é cego e não pode produzir os efeitos que a inteligência produz. Um acaso inteligente já não seria acaso.7 [...] Deus não se mostra, mas se revela pelas suas obras.3 A existência de Deus é, pois, uma realidade comprovada não só pela revelação, como pela evidência material dos fatos. Os povos selvagens nenhuma revelação tiveram; entretanto, creem instintivamente na existência de um poder sobre-humano. Eles veem coisas que estão acima das possibilidades do homem e deduzem que essas coisas provêm de um ente superior à Humanidade. Não demonstram raciocinar com mais lógica do que os que pretendem que tais coisas se fizeram a si mesmas?4