← Sumário Fundamentação Teórica

EXPOENTES DO ESPIRITISMO NASCENTE

4.1 A EQUIPE DA CODIFICAÇÃO ESPÍRITA

Narra o Espírito Humberto de Campos, no livro Brasil, coração do mundo, pátria do evangelho: Mal não haviam terminado as atividades bélicas da triste missão de Bonaparte e já o Espaço se movimentava, no sentido de renovar os surtos de progresso das coletividades. Assembleias espirituais, reunindo os gênios inspiradores de todas as pátrias do orbe, eram levadas a efeito, nas luzes do Infinito, para a designação de missionários das novas revelações. Em uma de tais assembleias, presidida pelo coração misericordioso e augusto do Cordeiro, fora destacado um dos grandes discípulos do Senhor, para vir à Terra com a tarefa de organizar e compilar ensinamentos que seriam revelados, oferecendo um método de observação a todos os estudiosos do tempo. Foi assim que Allan Kardec, a 3 de outubro de 1804, via a luz da atmosfera terrestre, na cidade de Lyon. Segundo os planos de trabalho do mundo invisível, o grande missionário, no seu maravilhoso esforço de síntese, contaria com a cooperação de uma plêiade de auxiliares da sua obra, designados particularmente para coadjuvá-lo, nas individualidades de [...] Léon Denis, que efetuaria o desdobramento filosófico; de Gabriel Delanne, que apresentaria a estrada científica, e de Camille Flammarion, que abriria a cortina dos mundos, desenhando as maravilhas das paisagens celestes, cooperando assim na Codificação kardequiana no Velho Mundo e dilatando-a com os necessários complementos.19

Foi assim que, seguindo Allan Kardec em sua reencarnação, desceram ao solo físico do planeta terrestre, em terras francesas, respectivamente: Camille Flammarion, em 1842, aqui permanecendo até o ano de 1925; Léon Denis, em 1846, ficando entre nós até 1927, e, por fim, Gabriel Delanne, em 1857, deixando-nos, pela desencarnação, no ano de 1926. É interessante ressaltar que tanto Denis como Flammarion, nada obstante as tarefas específicas que lhes foram atribuídas pela Espiritualidade Superior, conforme acima alinhadas, empregaram suas características peculiares nos esforços da pesquisa psíquica, fazendo, assim, coro com Delanne, nas conclusões sobre a verdade da sobrevivência após o decesso carnal. A sintonia de todos os membros da equipe da Codificação, no sentido de robustecer as provas de continuidade da vida, contribuiu, com certeza, para ampliar a força de convencimento do Espiritismo nascente, sendo um dos fatores preponderantes para a manutenção dessa força até os nossos dias. Gabriel Delanne, por sua vez, não se limitou ao trato exclusivo das questões científicas, procurando sempre associá-las aos aspectos filosóficos do Espiritismo. E Flammarion, além de um descortinador de astros e pesquisador psíquico, cuidou, como não poderia deixar de ser, dos desdobramentos filosóficos de suas concepções, alinhadas ao Espiritismo. Assim, pode-se dizer que toda essa grande equipe buscou desenvolver o Espiritismo em sua abrangência filosófica e científica. Outro aspecto a assinalar é que todos os membros dessa equipe inolvidável, organizada no Plano Espiritual, tiveram seus momentos de interação no plano físico. Gabriel Delanne era filho de Alexandre Delanne, amigo íntimo de Kardec, tendo sido sua mãe um dos médiuns que serviram de instrumento à obra da Codificação. Conta-se que, certo dia, o Codificador colocou o menino em seu colo e vaticinou que ele seria uma personalidade de destaque no Espiritismo.2 Flammarion trabalhou como médium na Sociedade Espírita de Paris. De acordo com a nota do Codificador no início do capítulo 6 de A gênese, todo o teor do capítulo, intitulado Uranografia geral, fora ditado pelo Espírito Galileu ao médium C. F., iniciais do jovem astrônomo e médium Camille Flammarion. Léon Denis, por sua vez, encontrava-se [...] em seus trabalhos de experimentações quando importante acontecimento se verificou em sua vida. Allan Kardec viera passar alguns dias na pacata cidade de Tours [onde Denis residia], com seus amigos. Todos os espíritas turenses foram convidados a recebê-lo e a saudá-lo!

Vejamos como Denis relata essa visita:

Alugáramos, para recebê-lo e ouvi-lo, uma sala na rua Paul Louis Courrier, e pedíramos a necessária autorização à Prefeitura, pois, no Império, severa lei proibia qualquer reunião de mais de vinte pessoas. Acontece que, no momento fixado, para essa assembleia, nos informaram que o nosso pedido fora indeferido. Encarregaram-me, então, de permanecer no local, a fim de avisar os convidados que deveriam dirigir-se a Spirito-Villa, casa do Sr. Rebodin, rua Santier, onde a reunião se realizaria, no jardim. Éramos, aproximadamente, trezentos ouvintes em pé, apertados de encontro às árvores. Sob a claridade das estrelas, a voz doce e grave de Allan Kardec se fazia ouvir; podia-se ver a sua fisionomia, iluminada que estava por pequena lâmpada colocada sobre uma mesa, ao centro do jardim. Falava sobre a obsessão, quando várias perguntas lhe foram feitas, às quais respondia sempre bondosamente. Terminada a reunião, todos levaram inefável recordação desse memorável encontro. No dia seguinte, voltei a Spirito-Villa, a fim de visitar o mestre; encontrei-o trepado em uma escada, ao pé de grande cerejeira, colhendo frutos que jogava à Madame Allan Kardec, cena bucólica que o distraía de suas graves preocupações.13

Delanne, Flammarion e Denis eram companheiros de atividades espíritas. No Congresso Espírita Internacional, realizado em Paris, de 16 a 17 de setembro de 1900, trabalharam juntos, realizando tarefa de destaque e, no de 1925, também em Paris, sob a presidência de Denis, Delanne teve participação ativa.2 A respeito da participação de Denis na presidência do Congresso de 1925, cita-se um fato interessante. Quando foi convidado para a presidência do evento, Denis, em princípio, recusou, pois, tendo como certo que Flammarion lá estaria, achava que a este caberia presidir o encontro. Foi necessário que o Espírito Jerônimo lhe dissesse, sem explicar, que o grande astrônomo não iria estar presente nessa ocasião. De certo, Flammarion não deixaria de ir a tão importante conclave, não fosse a sua desencarnação.17

4.2 A OBRA LITERÁRIA ESPÍRITA

A produção literária desses grandes vultos do Espiritismo, cooperadores de Allan Kardec, é vasta e diversificada. Seu estudo abrangente, de certo, transcenderia os limites deste Roteiro. Assim, torna-se necessário restringir esse estudo a alguns pontos que levem à reflexão sobre as contribuições desses dedicados Espíritos para dilatar a Codificação Espírita em seus necessários complementos, segundo as palavras do Espírito Humberto de Campos, já referidas.

4.2.1 Léon Denis

Léon Denis talvez tenha sido o maior escritor espírita de todos os tempos. Seu gênio literário era tal que levou o escritor e pesquisador inglês Arthur Conan Doyle a afirmar que ele, Denis, [...] teria sido considerado um grande mestre da prosa francesa, fosse qual fosse o conteúdo de seus escritos.8 Com efeito, Denis [...] produziu obras magníficas que encantam não só o leitor espírita, como o não espírita, obras que são verdadeiros tônicos de ação calmante para as almas irrequietas e angustiadas, e igualmente para aqueles que ambicionam conhecer um panorama mais real da razão do nosso viver e do nosso morrer.14

Era seu hábito olhar, com interesse, para os livros expostos nas livrarias. O livro foi sempre a sua fascinação. Um dia, quando contava 18 anos, o chamado acaso fez que sua atenção fosse despertada para uma obra de título inusitado, e cujo assunto, naturalmente, deveria arrepiar as almas pouco evoluídas. Esse livro era O livro dos espíritos, de Allan Kardec. Encontro providencial. Dispondo do dinheiro necessário, adquiriu-o, e, recolhendo-se imediatamente ao lar, entregou-se, com sofreguidão, à leitura. Passemos a palavra ao próprio Denis, e ele nos dirá: “nele encontrei a solução clara, completa, lógica, acerca do problema universal. Minha convicção tornou-se firme. A teoria espírita dissipou minha indiferença e minhas dúvidas”.15 É bem de ver que a leitura desse livro, fê-lo despertar de seu indiferentismo, para os sérios problemas da vida além da morte; seu Espírito, nessa hora, sentiu-se sacudido em face dos compromissos assumidos no Espaço, para iniciar, em breve, o trabalho de propagação das verdades kardequianas.15 Dentre as obras de Léon Denis, não se pode deixar de destacar a belíssima O problema do ser, do destino e da dor. De fato, o autor, nesse livro, complementa de modo magistral a obra fundamental do Espiritismo – O livro dos espíritos, de Allan Kardec –, expandindo, em seu inconfundível estilo, pontos essenciais da Doutrina Espírita, tais como a vida no Além; as missões espirituais; a reencarnação: suas leis e suas provas; a questão da justiça e o problema do mal; o livre-arbítrio; a disciplina do pensamento e a reforma do caráter.6 Em outra obra – intitulada Depois da morte – Denis, a par das questões notadamente filosóficas, desenvolve considerações acerca do fenômeno mediúnico nas religiões, desde a Antiguidade, e trata das relações do Espiritismo com a Ciência. Na folha de rosto dessa obra, vê-se o seguinte: Exposição da Doutrina dos Espíritos: solução científica e racional dos problemas da vida e da morte; natureza e destino do ser humano; as vidas sucessivas.7 O livro No invisível, por sua vez, é um desdobramento de O livro dos médiuns, de Allan Kardec, com a apresentação dos fatos do Espiritismo Experimental e as orientações para educação dos médiuns e formação de grupos mediúnicos. Ao tratar-se das obras de Léon Denis, não se poderia deixar de mencionar o seu livro O grande enigma. Nessa obra, além de considerar a Divindade sob os focos filosófico e científico, apresenta uma visão poética da Natureza, sensibilizando o leitor para o magno problema da criação. Em O grande enigma encontra-se demonstrada a fidelidade do autor ao que se poderia chamar de essência da Codificação Espírita: Deus e as leis universais. Todas as obras de Denis revestem-se da mesma fidelidade às obras básicas do Espiritismo, mostrando que, no imo de sua consciência, permanecia indelével o compromisso assumido no Plano Espiritual, no sentido de integrar a equipe incumbida de apresentar ao mundo os ensinamentos revelados pelos Espíritos Superiores, sob o comando do Cristo. Diria Léon Denis, ao final de sua reencarnação: Ao chegar a noite da vida, hora crepuscular em que nova etapa se finda e as sombras descem céleres e cobrem todas as coisas da vida melancólica, considero então o caminho percorrido, desde minha infância, e dirijo meus olhares para diante, para essa porta que, em breve, se me vai abrir para o Além e suas claridades eternas. A esta hora, minha alma recolhe-se e liberta-se, por antecipação, das amarras terrestres; vê e compreende a finalidade da vida. Consciente de seu papel, aqui embaixo, reconhecida aos favores de Deus, não ignorando o porquê da sua vinda e de seu comportamento, bendiz a vida pelas alegrias, dores e provas salutares, reconhecendo-as como instrumentos de educação e elevação. Bendiz a vida terrestre, com o pensamento de retornar, mais tarde, em nova existência, para trabalhar ainda, sofrer, aperfeiçoar-se e contribuir para o progresso deste mundo e da Humanidade.16

4.2.2 Gabriel Delanne

Gabriel Delanne, como se viu, fez parte do círculo íntimo de Allan Kardec. Proveniente de família espírita teve, naturalmente, acesso às ideias espíritas desde cedo. Integrando a equipe de Kardec, segundo a incumbência que lhe fora conferida pela Espiritualidade Superior, Delanne dedicou-se, em especial, aos aspectos científicos da Doutrina Espírita, embora não tenha descuidado de considerar, em suas obras, também seus reflexos filosóficos. Em sua obra O espiritismo perante a ciência, traz complementos preciosos à Codificação Espírita, desenvolvendo aspectos relevantes dos fenômenos anímico e mediúnicos, detendo-se, em particular, nas investigações sobre a existência e o papel do perispírito. A alma é imortal – outro de seus brilhantes trabalhos – é, por sua vez, inteiramente dedicado ao estudo experimental do perispírito, trazendo valiosa contribuição para o aprofundamento das questões ligadas a esse instrumento essencial para a atuação do Espírito, encarnado ou desencarnado. Em O fenômeno espírita, Delanne faz um estudo histórico da fenomenologia mediúnica, mediante exposição metódica sobre a diversidade de seus aspectos, discutindo hipóteses e apresentando o testemunho dos sábios. Oferece conselhos aos médiuns e experimentadores, de um modo geral, abordando ainda a força filosófica do Espiritismo e a progressividade de seus ensinos. Além dos tópicos mencionados, a obra consagra passagens à análise da reencarnação e suas provas.3 Trata-se, com efeito, de valioso complemento, em particular, em O livro dos médiuns.3 Uma peculiaridade dessa obra é a carinhosa dedicatória de Delanne ao seu mestre Allan Kardec, expressa nos seguintes termos: À alma imortal de meu venerado mestre Allan Kardec eu dedico este livro, obra de um de seus mais obscuros, mas de seus mais sinceros admiradores. Gabriel Delanne.4 Oportuno ressaltar, ainda, o apelo de Delanne aos pesquisadores de todos os tempos, expresso no final de seu prefácio à obra em apreço: Esperamos que este demonstrativo consciencioso e imparcial produza a convicção no espírito de todos os que souberem desprender-se dos preconceitos vulgares e das ideias preconcebidas, para friamente encararem esta ciência nova, cujos frutos são muito importantes para a Humanidade. É em nome do livre pensamento que convidamos os investigadores a se ocuparem com os nossos trabalhos; é com instância que lhes pedimos não repelirem sem exame esses fatos, tão novos e tão imperfeitamente conhecidos, pois estamos persuadidos de que a luz brilhará a seus olhos, como brilhou para os homens de boa-fé que, há cinquenta anos, quiseram estudar os problemas do Além, tão perturbadores e tão misteriosos antes dessas descobertas.5

Não se poderia findar este tópico sobre Delanne sem citar ainda duas de suas excelentes obras, inteiramente fundamentadas na Codificação Espírita, mas com o foco especial na investigação científica: A evolução anímica e A reencarnação. Em ambas, o autor se esmera em trazer provas experimentais não só da passagem do princípio inteligente pela série animal, como também da encarnação dos Espíritos, priorizando, na obra A reencarnação, os aspectos da encarnação humana. São dois livros preciosos, de grande valia para o estudioso do Espiritismo.

4.2.3 Camille Flammarion

Camille Flammarion revelou, desde a infância, seu alto desenvolvimento intelectual. Aos 4 anos sabia ler, aos 4 anos e meio, escrever e, aos 5 anos, conhecia rudimentos de Gramática e Aritmética. Cedo sentiu-se despertar para as questões de Astronomia, tanto que aos 16 anos escreveu seu primeiro livro: Cosmogonia universal, de 500 páginas. Pouco depois já estudava Astronomia no Laboratório de Paris. Aos 19 anos teve seu primeiro contato com o Espiritismo, quando, ao passar por uma livraria abriu certo livro numa página e se deparou com um subtítulo: Pluralidade dos mundos. Ora, ele trabalhava numa obra referente sobre o mesmo assunto e que seria publicada no ano seguinte. O livro casualmente aberto fora O livro dos espíritos. Incontinenti procurou Allan Kardec e passou a frequentar as reuniões da Sociedade Parisiense de Estudos Espíritas, exercitando suas faculdades mediúnicas. Pouco tempo depois foi convidado por Kardec para ingressar na sociedade, como membro associado livre.18 A obra literária espírita de Flammarion traz valiosos complementos à Codificação Kardequiana, dilatando alguns de seus pontos específicos. Assim é que, em seu livro Deus na natureza, a questão de Deus é estudada em profundidade. Nessa obra, Flammarion procura demonstrar aos cientistas seus contemporâneos que a questão da Causa primeira do Universo não é apenas filosófica, mas pode ser também enfrentada pelo método científico experimental. Deus na natureza é obra de grande abrangência temática, em que o autor, usando seus conhecimentos de Astronomia, das ciências em geral e de Filosofia, trata de vários assuntos ligados ao tema central: na Primeira parte – A força e a matéria: Posição do problema; O Céu; A Terra; na Segunda parte – A vida: Circulação da matéria; A origem dos seres; na Terceira parte – A alma: O cérebro; A personalidade humana; A vontade do homem; na Quarta parte – Destino dos seres e das coisas: Plano da Natureza (construção dos seres vivos; instinto e inteligência). Enfeixa todos esses assuntos no magno problema da compreensão de Deus na Natureza.9 Em outro de seus valiosos livros, O desconhecido e os problemas psíquicos (dois volumes), o autor, detendo-se especificamente nos fenômenos anímicos, traz interessante pesquisa acerca das manifestações telepáticas de moribundos, diferençando-as das alucinações. Discorre sobre a transmissão de pensamentos e a comunicação a distância entre encarnados. Refere-se ainda ao mundo dos sonhos: sonhos psíquicos, manifestações de Espíritos durante o sono, telepatia nos sonhos, visão a distância em sonho e sonhos premonitórios.10 Insere, na conclusão da obra, o célebre pensamento de Shakespeare, constante na obra Hamlet: “Há mais coisas entre o céu e a Terra, Horácio, que tudo o que saber pode a nossa filosofia”.11 A morte e o seu mistério, em três volumes, é, por sua vez, um trabalho pormenorizado acerca do fenômeno da desencarnação, com o relato das manifestações dos Espíritos antes, durante e depois da morte de seu corpo físico. O livro é de grande interesse para o estudioso. Nela, como de hábito, revela-se o esforço dos cooperadores de Kardec para enriquecer a obra da Codificação. Em suas conclusões, assinala Flammarion, acenando para os tempos futuros:

Sejam quais forem os complementos a serem acrescentados às observações precedentes, possuímos de ora em diante a certeza científica da sobrevivência da alma, além do último suspiro terrestre. A ALMA É INDEPENDENTE DO

ORGANISMO MATERIAL E CONTINUA A VIVER DEPOIS DA MORTE.12

Conhecido é, ainda, o discurso proferido por Flammarion no sepultamento do corpo físico de Allan Kardec. Registrem-se algumas de suas palavras finais, por testemunho de carinho ao seu mestre e amigo: Pouco importa que aqueles cuja vista é limitada pelo orgulho ou pelo preconceito não compreendam absolutamente os anseios de nossas mentes ávidas de conhecer e lancem sobre este gênero de estudos [do Espiritismo] seus sarcasmos ou anátemas. Colocamos mais alto as nossas contemplações!... Foste o primeiro, ó mestre e amigo! Foste o primeiro a dar, desde o início da minha carreira astronômica, testemunho de viva simpatia às minhas deduções relativas à existência das humanidades celestes, pois, tomando do livro sobre a Pluralidade dos mundos habitados, o pusestes imediatamente na base do edifício doutrinário com que sonhavas. Muitas vezes conversávamos sobre essa vida celeste tão misteriosa: agora, ó alma, sabes, por visão direta, em que consiste a vida espiritual a que voltaremos todos e que esquecemos durante a existência na Terra. [...] [...] A imortalidade é a luz da vida, como este Sol resplandecente é a luz da Natureza. Até breve, meu caro Allan Kardec, até breve!1

Resta ainda salientar o interesse de Flammarion pelos fenômenos anímicos. Mais talvez que os demais integrantes da equipe da Codificação, dedica grande parte de sua obra literária espírita ao exame das manifestações de emancipação da alma. Preocupação semelhante acudiu ao grande pesquisador italiano Ernesto Bozzano, que, em sua obra Animismo ou espiritismo?, consagra-se a demonstrar a importância do fenômeno anímico para a compreensão de toda a fenomenologia mediúnica.Em suma, por tudo o que foi exposto, pode-se ter uma ideia do grandioso trabalho desenvolvido por esses três grandes vultos do Espiritismo nascente, os quais, desenvolvendo os ensinos dos Espíritos Superiores sintetizados por Allan Kardec, contribuíram para que as luzes da Doutrina Espírita chegassem aos nossos dias, iluminando o porvir da Humanidade.