← Sumário Fundamentação Teórica

FENÔMENOS MEDIÚNICOS QUE ANTECEDERAM A CODIFICAÇÃO: HYDESVILLE E MESAS GIRANTES

Em meados do século XIX, surgiram na América, fenômenos que, pelo caráter ostensivo e intencional, causaram forte impacto na opinião pública, em geral, com ressonância no mundo intelectual da época: os fenômenos de Hydesville, que, ao lado das mesas girantes, contribuiriam efetivamente para o surgimento do Espiritismo.

4.1 OS FENÔMENOS DE HYDESVILLE

Em 1847, a casa [uma tosca cabana] de um certo John Fox [e sua mulher Margareth], residente em Hydesville, pequena cidade do Estado de Nova Iorque, foi perturbada por estranhas manifestações; ruídos inexplicáveis faziam-se ouvir com tal intensidade que essa família não pôde mais repousar. Apesar das mais numerosas pesquisas, não se pôde encontrar o autor dessa bulha insólita; logo, porém, se notou que a causa produtora parecia ser inteligente. [...]4 As filhas do casal Fox, Margareth e Kate e ainda a mais velha, Lia, casada, eram médiuns. Kate, de 11 anos, no dia 31 de março de 1848, quando as pancadas (em inglês chamadas raps) se tornaram mais persistentes e fortes, resolveu desafiar o mistério, travando-se um diálogo com o que todos julgavam fosse o diabo:
– Senhor Pé-rachado, faça o que eu faço, batendo palmas. Imediatamente se ouviram pancadas, em número igual ao das palmas. A Sra. Margareth, animada, disse, por sua vez:
– Agora faça exatamente como eu. Conte um, dois, três, quatro. Logo se fizeram ouvir as pancadas correspondentes. – É um Espírito? perguntou, em seguida. Se for, dê duas batidas. A resposta, afirmativa, não se fez esperar. – Se for um Espírito assassinado, dê duas batidas. Foi assassinado nesta casa? Duas pancadas estrepitosas se fizeram ouvir.3 Chamados os vizinhos, estes foram testemunhas dos mesmos fenômenos. Todos os meios de vigilância foram postos em ação para a descoberta do invisível batedor, mas o inquérito da família e o de toda a vizinhança foi inútil. Não se pôde descobrir a causa real daquelas singulares manifestações. As experiências seguiram-se, numerosas e precisas. Os curiosos, atraídos por esses fenômenos novos, não se contentaram mais com perguntas e respostas. Um deles, chamado Isaac Post, teve a ideia de nomear em voz alta as letras do alfabeto, pedindo ao Espírito para bater uma pancada quando a letra entrasse na composição das palavras que quisesse fazer compreender. Desde esse dia, ficou descoberta a telegrafia espiritual; este processo é o que vemos aplicado nas mesas girantes.5

Foi por meio desse processo – o uso do alfabeto na telegrafia espiritual – que os Espíritos enviaram mensagens reveladoras dos desígnios superiores, como esta a seguir:

Caros amigos, deveis proclamar ao mundo estas verdades. É a aurora de uma nova era; e não deveis tentar ocultá-la por mais tempo. Quando houverdes cumprido o vosso dever, Deus vos protegerá; e os bons Espíritos velarão por vós.12 Os Fox, vítimas da intolerância e do fanatismo dos conservadores da fé, resolveram, então, oferecer-se para mostrar publicamente os fenômenos à população reunida no Corinthian-Hall, o maior salão da cidade de Rochester. Essas apresentações, após passarem pelo exame rigoroso de três comissões, foram declaradas verdadeiras, e, como era de se esperar, grande foi o tumulto, com o quase linchamento das jovens Fox. Mas a perseguição traz, como consequência, o aumento do número de adeptos para as ideias que combate. Assim, poucos anos depois, já havia alguns milhares de seguidores do Espiritualismo Moderno nos Estados Unidos.6

4.2 AS MESAS GIRANTES

É necessário dizer-se que o fenômeno tomou, em seguida, outro aspecto. As pancadas, em vez de se produzirem sobre as paredes e sobre o assoalho, faziam-se ouvir na mesa, em torno da qual estavam reunidos os experimentadores. Este modo de proceder fora indicado pelos próprios Espíritos.7 O primeiro fato observado foi o da movimentação de objetos diversos. Designaram-no vulgarmente pelo nome de mesas girantes ou dança das mesas. Este fenômeno, que parece ter sido notado primeiramente na América [...], se produziu rodeado de circunstâncias estranhas, tais como ruídos insólitos, pancadas sem nenhuma causa ostensiva. De lá, propagou-se rapidamente pela Europa e pelas outras partes do mundo [...].1 As primeiras manifestações inteligentes se produziram por meio de mesas que se levantavam e, com um dos pés, davam certo número de pancadas, respondendo desse modo – sim ou não –, conforme fora convencionado, a uma pergunta feita. Até aí nada de convincente havia para os céticos, porquanto bem podiam crer que tudo fosse obra do acaso. Obtiveram-se depois respostas mais desenvolvidas com o auxílio das letras do alfabeto: dando o móvel um número de pancadas correspondente ao número de ordem de cada letra, chegava-se a formar palavras e frases que respondiam às questões propostas. A precisão das respostas e a correlação que denotavam com as perguntas causaram espanto. O ser misterioso que assim respondia, interrogado sobre a sua natureza, declarou que era Espírito ou Gênio, declinou um nome e prestou diversas informações a seu respeito. Há aqui uma circunstância muito importante, que se deve assinalar. É que ninguém imaginou os Espíritos como meio de explicar o fenômeno; foi o próprio fenômeno que revelou a palavra [...].2

Vale enfatizar que, a propósito dessas manifestações novas na América, muitos intelectuais, como o juiz John W. Edmonds, o prof. James J. Mapes, o célebre prof. Robert Hare, o sábio Robert Dale Owen, dentre outros, aproximaram-se das novas ideias com o objetivo de esclarecer as pessoas quanto à ilusão em que estavam imersas. Mas, em vez disso, eles, os sábios, recuando honestamente em seus propósitos, declararam a veracidade dos fatos, aumentando ainda mais o interesse pelas manifestações mediúnicas, portadoras de mensagens vindas do Mundo Espiritual.8, 11 A notícia dos fenômenos misteriosos que se produziam na América, suscitou na França viva curiosidade e, em pouco tempo, a experiência das mesas girantes atingiu grau extraordinário. Nos salões, a moda era interrogá-las sobre as mais fúteis questões. Era um passatempo de nova espécie e que fez furor [...].9 Em 1853, a Europa inteira tinha as atenções gerais convergidas para o fenômeno das chamadas “mesas girantes e dançantes”, considerado “o maior acontecimento do século” pelo Rev.mo padre Ventura de Raulica, então o mais ilustre representante da teologia e da filosofia católicas [...].14 A imprensa informava e tecia largos comentários acerca das estranhas manifestações, e, a não ser o grande físico inglês Faraday, o sábio químico Chevreul, o conde de Gasparin, o marquês de Mirville, o abade Moigno, Arago, Babinet e alguns outros eminentes homens de ciência, bem poucos se importavam em descobrir-lhes as causas, em explicá-las, a maioria dos acadêmicos olhando os fenômenos com superioridade e desdém.15 Voltando aos dias da tumultuosa França de meados de 1853, vemos que grupos e mais grupos de experimentadores curiosos se haviam organizado num fechar de olhos. A maravilhosa loucura do século XIX já se havia infiltrado no cérebro da Humanidade [...]. E Paris inteira “assistia, atônita e estarrecida, a este turbilhão feérico de fenômenos imprevistos que, para a maioria, só alucinadas imaginações poderiam criar, mas que a realidade impunha aos mais céticos e frívolos”. A Imprensa francesa, diante da demonstração irrefragável dos novos fatos [manifestações de Espíritos], que saltavam aos olhos de todos, franqueou mais amplamente suas colunas ao noticiário a respeito, dessa forma ateando mais fogo nos debates e controvérsias que então se levantaram entre os observadores menos superficiais.13 Mas as mesas continuaram... Veio o Santo Ofício e, em 4 de agosto de 1856, condenou os fenômenos em voga, dizendo serem consequência de hipnotismo e magnetismo (já que pouca gente acreditava em peripécias do “diabo”), e tachava de hereges as pessoas por intermédio das quais eles eram produzidos.16

Estava, assim, cumprido o papel dos fenômenos dessa fase inicial – invasão organizada, no dizer do escritor inglês Arthur Conan Doyle –, programada pelos Espíritos Superiores, com vistas à chegada de uma Nova Era de progresso para os homens.10